Nosso Castelo de Cartas

Nosso Castelo de Cartas

sábado, 26 de dezembro de 2020

A primeira e última carta ao meu amor escrita

A primeira carta ao meu amor escrita
A primeira e última carta ao meu amor escrita

Te vi a primeira vez
num bar
Copo de cerveja na mão
Cabelos loiros que brilhavam
como o pôr do sol no verão
Um sorriso que encantaria
qualquer um que passaria...

E eu me encantei.
Mas naquele momento
o destino ria as minhas custas
Eu escrevia na areia da praia
seu nome e o meu
num coração
Sem saber que uma onda ia passar
nossos nomes, apagar
te levar para longe de mim
pra nunca mais voltar

Naquele dia que te vi
seus lábios tocaram os meus
nós dois brincando na piscina...
Como num filme tocava ao fundo músicas de amor
Enquanto aquele momento passava em câmera lenta
e eu me apaixonava por você

Nos encontramos uma, duas, três vezes
passava cada uma delas e eu só queria te ver mais
Olhava no fundo dos teus olhos
me apaixonava cada vez mais por você

Decidi te escrever uma carta!
A primeira carta ao meu amor escrita.
Mas depois de dias de páginas rasgadas,
rascunhos errados
Desisti de descrever você,
Afinal tu és arte tão sublime
que jamais caberia em palavras num papel

Resolvi então subir no alto da montanha
em busca da mais bela flor pra te dar
mas não encontrei nada pra levar
que fizesse jus a sua beleza
Desisti também da flor...
Mas te levei umas amoras que peguei no caminho
Suas favoritas.

No último dia do ano,
resolvi te entregar minha carta de amor.
De surpresa fui em sua casa
de longe te vi na porta...
Mas você não estava sozinha

Como a onda que apagou nosso nome na areia
Apareceu alguém do teu lado
E te roubou de mim
Você abraçada com ele
O olhava nos olhos
E eu me perguntava se você o via
Com os mesmos olhos que eu olhava pra ti

As lágrimas caíam no meu rosto
precisava ir embora
A onda que te levou
me tornou náufrago
Pois sem você não havia chão
sob meus pés

Amaldiçoei os céus por meu destino
agora, já era tarde demais.
A primeira carta ao meu amor escrita,
na verdade, era a última.

Quis ir embora, mas fiquei
peguei minha caneta e a carta risquei...
Mas risquei só o título
aquele traço em cima das palavras
cortava mais que uma faca em meu coração

Mas engoli as lágrimas, olhei pra ti
Você me viu
Caminhei em sua direção
Te entreguei a carta
As amoras
Parti em minha solidão

Ficou em suas mãos a última carta ao meu amor escrita
Ficou contigo, meu coração
Ficaram comigo apenas lágrimas
A lembrança dos teus lábios
A memória do teu toque
O som da tua voz

Naquele momento
o destino ria as minhas custas
Eu afundava na imensidão do mar
Nunca mais irei te ver
Nunca mais vou te encontrar

Que ao menos se eternize em papel
A última carta a meu amor escrita
Talvez assim ainda viva
Um pedacinho de mim
Em seu coração

Triste eu parti da sua vida
Te amei mais que deveria
Espero que seja muito feliz
Mas pra não esquecer de nós
Fique ao menos com essas palavras
Fique com a última carta
ao meu amor
escrita

Oh meu amor
Daria o mundo pra te ter de volta
Mas agora já é tarde demais
O sol se põe as minhas costas
Você parte pra longe de mim
E a única coisa que me é permitida
São as memórias desse amor
Que ficarão eternizadas
Nessa última carta
ao meu amor
escrita

terça-feira, 10 de novembro de 2020

A cigana de fogo (Ato 1)


1813
Europa ocidental
Voltava pra casa após mais um dia de trabalho nada incomum
Distante eu vi uma fogueira
Um povo estranho em volta dela dançando e cantando
Me aproximei
Talvez
Demais

Ergueu-se de dentro das chamas
Uma cigana de pele clara como a lua cheia
Cabelos amarelos como as chamas em volta de seu corpo
Olhos da cor do mar

Eu olhei dentro de seus olhos
Só por um segundo
E me perdi

De repente era náufrago
Sem chão sob meus pés
Perdido na imensidade do mar


Fiquei a admirar a cigana dançar
Ela movia o fogo aos céus
Com seus braços entrelaçados acima do rosto
Seu cabelo se perdia entre as chamas atrás de seu corpo
A fluidez dos seus dedos
Transformava o fogo em ondas
Do mar
Que me puxavam cada vez mais
Do porto seguro, da praia tranquila
Pra dentro daquele aterrorizante mar de fogo

Um passo de cada vez eu me aproximava da cigana
Como um velho andando lentamente em direção a morte
Mal sabia eu
Que já estava condenado
Já estava enfeitiçado
Pela cigana de fogo
Dos olhos de mar

Uma rosa que a cigana atirou aos céus
Caiu sob meus pés
Eu me abaixei, a peguei
Me apeguei
A rosa vermelha da cigana
Que dançava ao luar

Eventualmente os observadores partiram
Depois os donos da festa se levantaram
Por último os músicos pararam de tocar
E a cigana que me enfeitiçou parou de dançar

Ela se aproximou de mim e sorriu
Como um gago, mal consegui falar
A cigana pegou suas coisas e partiu
Mas eu gritei
Espere!
Não se vá!

Eu corri ao encontro da cigana de fogo
Perguntei seu nome
Segui seu caminho com ela
Afinal sem a cigana, tão bela
Eu jamais conseguiria ficar

A cigana de fogo
Me enfeitiçou com seu olhar
Dormi aquele dia ao lado dela
Foi muito melhor que sonhar

Naquela triste manhã escura
Acordei ao nascer do sol
Sozinho

Procurei a cigana em todo lugar
Eu não a encontrei
Mas ela me encontrou e me disse

Me perdoe
Mas aqui não é meu lugar
Terei que partir
Pra nunca mais voltar

Eu me ajoelhei
Implorei
Cigana de fogo
Por favor!
Não vá

Seus olhos de mar
Se encheram de lágrimas
Ainda assim a cigana se foi
Mas ela me prometeu voltar

Com um sorriso no rosto
Eu deixei a cigana ir
Na esperança e na certeza
Que um dia ainda
Haveria sorrir

Então no outro dia eu voltava pra casa
Após mais um dia de trabalho nada incomum
Distante eu buscava a fogueira da cigana
Mas nada encontrei

Passou-se um dia
Um mês
Um ano

Dia após dia
Eu buscava a cigana
Por todo lugar

Construí uma casa
Pra gente morar
A cama minha e da cigana
Onde ela iria deitar

Plantei uma rosa vermelha no chão
Pra dar a cigana de fogo
As mais belas flores do meu jardim
Quem sabe assim
Quando voltasse
Aqui comigo
Ela ficasse
Do meu lado
Até o mundo acabar

Disseram-me
Esqueça a cigana!
Disseram-me
Era uma bruxa que o enfeitiçou!
Primeiro eu não os ouvi
Depois quis muito escuta-los
Mas é claro que não consegui

Todo dia, pra cigana, eu esquentei um chá
Todo dia eu implorava pra ela voltar
Colocava minha roupa mais bonita
Levava comigo a rosa mais bela do jardim
Atravessava a cidade em busca da cigana
Mas ela...
Ela nunca estava lá.

Os anos passaram
Eu passei

Como um velho andando lentamente em direção a morte
Bem sabia eu
Que ainda estava condenado
Ainda estava enfeitiçado
Pela cigana de fogo
Dos olhos de mar

No meu último dia na terra
Ainda teimei em insistir com as estrelas
Por que? Ah! Uma promessa
Uma promessa há
Cigana dos cabelos de fogo
Talvez não nessa vida
Mas ainda irei te encontrar

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Sobre dor

Às vezes...
as pessoas acham que podem magoar você
A verdade? 
É claro, elas sempre podem.

Mas, 
no meu caso, 
não.
não se preocupe com isso,
não dá pra me magoar mais.

As pessoas que sentem demais 
são extremamente masoquistas. 
Veja os poetas, por exemplo
Sentem demais 
quer queiram 
quer não queiram 
estão predestinados a dor 

Sentir demais...
A mais amaldioçada 
dádiva de todas.

A verdade é que a maioria das pessoas vêem a dor como uma terrível inimiga 
Outras não. 

Existem pessoas, que apenas acham que conhecem a dor...
e existem pessoas que tem a dor como uma aliada
Que nasceram nela
Foram moldadas nela 
Sofreram muito
Sofreram sempre
Sofreram tanto

Não adianta fugir 
Ela vai te alcançar, te acertar tão forte
Tantas vezes...

Até você se acostumar com ela 
Essas pessoas
Esses poetas
Já sentiram tanta dor 
que deixaram de sentir dor 
que passaram a não sentir nada.
Chegou um ponto que elas nem conseguiam mais sofrer. 
Sofrer tornou-se usual
Tornou-se padrão
Tornou-se só mais um dia comum 
É hábito 
Faz parte 
É assim mesmo 

Esse é o ponto que você esquece a dor. 
O problema é que
quando você
esquece a dor

Você ganha um problema novo
Agora você não sente 
mais
nada. 
E aí você descobre que não sentir nada
É pior que a dor 

Aí você começa a procurar
o que sentir 
em todo canto
Procura em todos os lugares
grita
Socorro! 
Não estou sentindo nada
Já não sinto amor
Nem dor
Já não sinto nada 

Até que um dia, você encontra a dor 
E lembra que não sentir nada 
É pior que o sofrer 
É pior que a dor 
É depois do fundo do poço 

Aí você abraça a dor
Final feliz
Reconciliação!
Estão juntos novamente
É muita alegria 
Ter a dor de volta consigo 

Aí depois de tudo isso
Você não larga ela nunca mais 
A dor ela anda sempre do seu lado 
É sua amiga
Sua maior aliada 

E você aprende 
Que é bom sentir dor 
porque pior que não sentir dor
É não sentir nada

Então sinta 
Nunca deixe de sentir 
Sinta exageradamente 
Grite tudo que sentir 

Se não te ouvirem
Vai restar a dor.
Mas a dor? 
A dor meu amigo
Anda sempre do meu lado 

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Reescrevendo (Nov/2013) - O poeta sem coração

Disseram-me que os poetas escrevem
Aquilo que vem no coração
Mas um dia, rodando pelo mundo
Eu encontrei um poeta sem coração.
Eu perguntei a ele como escrevia
Afinal como poderia
Ser um poeta, sem coração

Ele disse eu não sou, eu fui
Um dia eu fui um poeta
Quando eu tinha um coração
Hoje já não sou mais

E o que aconteceu com o seu coração?
Foi arrancado de seu peito?

Se tivesse sido arrancado, eu teria percebido
Se tivesse sido roubado, eu teria notado.
Se tivesse sido destruído, eu teria sentido
Se tivesse sido machucado, eu teria visto.
Se tivesse sido guardado, eu saberia onde.
Mas ele sumiu
Sem que eu percebesse ele fugiu
Eu vi ele partindo e o deixei
E quando me dei conta, já era tarde
Ele já não estava mais aqui

E como é não ter um coração?
Sem um coração, é difícil sofrer.

E isso não é bom?
Não, não é.

E porque não?

Se você gosta da luz, é porque ela te salva das trevas
Se você gosta da beleza, é porque sabe o que é feio
Se você gosta é porque sabe o que é odiar.
Mas e se você de repente não pode mais sofrer?
Não pode mais sentir?
O que é a felicidade?
Eu esqueci.

E o que fará você sem um coração?

Eu pagarei a minha pena
Como um ser vazio de sentimentos
Exaltando a solidão
Mascarando a felicidade
Vivendo de ilusões

A realidade é cruel criança
O mundo faz seu coração partir
Ele leva embora suas esperanças
E esmaga seus sonhos

Para onde você vai?

Eu vou embora
Seguir meu rumo sem destino
Procurar um sentido sem sentido
E juntar-me a multidão
Eu fiquei velho e cansado
E já não há para onde ir

Você me escutou criança?
Sim.

Então está tudo bem.
Dentro das suas memórias
Eu viverei para sempre

Ser poeta é assim.
Não importa quantas vezes eu morra.
Palavras,
São imortais.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Mergulho e Queda

          Do alto do abismo o poeta admira a paisagem da solidão, as nuvens passam entre as suas mãos. Ele deita no chão frio e observa o céu azul, não há mais nada afora o mar escuro tantos metros abaixo. 
          O poeta levanta, sorri, e corre desesperadamente para a beira do abismo como se sua própria vida dependesse disso, ele pula, salta, se joga, se atira, se lança ao nada do horizonte como se não houvesse amanhã. Seus movimentos são perfeitos, mergulhador profissional, já pulou tantas vezes que sabe exatamente o que fazer, como pular, em que posição descer e como cair. Foi um salto perfeito. 
            E é aqui que você entende porque os poetas são mergulhadores. É o vento que corta seu rosto, a sensação de não ter chão sob seus pés, a liberdade de não ter absolutamente nada te segurando. 
        Ele segue com toda velocidade para frente, rosto em direção à água, mas é aí que mora o problema… todo pulo é um mistério… um salto de fé em direção ao desconhecido, mas às vezes, na verdade, na grande, esmagadora maioria das vezes, a aterrissagem é catastrófica. Os poetas vivem de mergulhos profundos, atirados ao infinito sem medo das consequências… é inevitável... sentir é seu vício, e todos que sentem demais entendem que se este é o mais belo dos dons, ao mesmo tempo também é a mais terrível de todas as maldições.
      Afinal, a liberdade do salto… o vento atravessando o rosto, sentir o peito palpitando a velocidades absurdas… Vale a queda?
            Porque a queda é hedionda, aterrorizante, impiedosa.
         O som que vem em seguinte é terrível. Mais uma vez, o poeta se atira com toda vontade em direção ao desconhecido… mas mergulhos profundos em superfícies rasas não são algo bonito de se ver. O poeta atinge a água com toda velocidade, a profundidade do chão? Dez centímetros. Serei honesto com vocês, de tantos saltos que deu na vida, ele nunca antes em toda a sua história havia atingido uma superfície tão rasa, fútil, egocêntrica.
       Foi arrasado, destruído, assolado, danificado, avariado, inutilizado, desfeito, desmanchado, demolido, derrotado, arruinado, desolado, desbaratado, aniquilado, destroçado, abatido, devastado. Incontáveis ossos de seu corpo se quebraram, seu sangue atirado em todas as direções, cada pedaço do seu corpo sentia uma dor insuportável, e muitos diriam, que morrer seria melhor do que experimentar tamanho sofrimento.
           Com a face esmagada no chão, sangue por todos os lados espalhando-se pelo mar, tantos ossos do corpo em pedaços, rosto mergulhado e pulmões enchendo-se de água salgada, parecia o fim do poeta.
          Entretanto, eis aí a dádiva e ao mesmo tempo, o grande infortúnio dos que sentem demais. É impossível a morte por queda… os poetas são imortais. Mas e a dor? Ah, a dor é tamanha que muitas vezes a morte lhes parece um destino muito mais doce e gentil.
          Passa-se o tempo e o poeta permanece mergulhado na água, sentindo seu sangue se esvaindo, seus ossos despedaçados, o sal em seus ferimentos e a água em seus pulmões. O tempo se vai… e aos poucos o poeta começa a se recuperar, demora, demora muito, uma eternidade, mas seus ossos quebrados eventualmente se consertam, o sangue perdido volta a bombear em suas veias, e ele lentamente começa a rastejar, sentar-se, levantar-se, caminhar, ele volta a olhar para o sol. A dor ainda não passou, mas é menor, mais suportável a cada dia.
        O mais cedo possível, o poeta, apesar de ainda nem estar completamente recuperado, carregando consigo cicatrizes que permanecerão por uma vida inteira, logo volta a escalar a montanha, e ei de avisar, que a escalada já é difícil por si só, mas com tantos ossos tão recentemente quebrados, com tão pouco sangue percorrendo seu corpo, todo o cansaço dos ferimentos e da queda, torna a subida quase que impossível. Mas ele não desiste nunca, e o poeta logo alcança novamente o topo da montanha. 
          Do alto do abismo o poeta admira a paisagem da solidão… as nuvens passam entre as suas mãos, ele corre como se sua própria vida dependesse disso, e se joga mais uma vez. 
          Ao sentir a indescritível dor da queda, é plausível compreender que algumas pessoas jamais conseguem pular outra vez. No alto da montanha é mais seguro, mais tranquilo, lá é fácil… o poeta entende perfeitamente o sentimento de todos que se recusam a saltar uma segunda vez.
           Mas ele simplesmente não consegue. Se atirar do alto do abismo é a natureza do poeta, mesmo sabendo da imensa possibilidade de quase sempre atingir superfícies extremamente rasas, que o farão quebrar todos os ossos do seu corpo, tal medo não é o suficiente para impedir o poeta de saltar. Se arriscar na queda para o poeta é vício, é impossível não se jogar.
          Então, ele salta mais uma vez em direção ao desconhecido, na esperança que desta vez, quem sabe, consiga alcançar a verdadeira profundidade e imensidão do mar.
          Contudo, para o poeta, o maior prazer é a queda. O vento cortando seu rosto, estar no ar ainda que seja por tão poucos segundos sem tocar nada, a liberdade de sentir tudo até o último momento, é tudo tão rápido, e ele sempre sabe que muito provavelmente atingirá mais uma vez o chão raso que irá quebrar todos os ossos do seu corpo. Isso tudo, por uma brevidade tão ínfima. Será que vale mesmo a pena? 

          O salto, pela queda?

          Sim.

          Vale.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Reescrevendo (Fev/2014) - Amor de 13 anos

Bom mesmo é amor de treze anos, já parou pra pensar?
Com treze anos você podia chegar pra alguém e dizer eu te amo, quer namorar comigo?
Do nada.
Aí você cresce e dizer eu te amo vira proibido.

Já pensou virar pra alguém na rua e dizer eu te amo?
Mas como assim! Você nem conhece?
Conheço sim, de outra vida.
Quando éramos gatos.
Você só esqueceu, mas eu me lembro.

Você tem que se aproximar das pessoas com cuidado, se fala demais com elas, tá enchendo o saco. Se puxa conversa, tá dando mole. Se você tenta falar com alguém que não conhece, tá “cantando”.

Não dá mais pra chegar no meio da rua, e falar pra alguém “Hey, quer ser meu amigo?” Caraca que estranho. Adultos não fazem isso. Você é retardado?

Vamos andar por aí? Tá louco! Quer me levar pra onde? É bandido.

Crescer é muito chato.
Te prometem liberdade, mas cadê a minha?

Quando eu era criança eu podia chamar qualquer um na rua pra ser meu amigo. Podia mandar uma cartinha pra uma menina que eu não sabia nem o nome e dizer “eu te amo”.

E hoje nada pode.
Até falar com alguém do nada é estranho.

Bom mesmo é amor de 13 anos. Se apaixonar perdidamente, quebrar a cara certamente.

Aí você fica velho e já nem se apaixona mais. A vida se torna uma grande sucessão de decepções, tudo é previsível, prevenido, precavido, precário, no pretérito, uma porra.

Bom mesmo é amor de 13 anos.
Quando você não pensa em mais nada. Só em estar apaixonado.

Aí você fica velho e a vida te cobra, são compromissos, afazeres, dinheiro, responsabilidades, obrigações, dinheiro, estudar, trabalhar, dinheiro, sobreviver, dinheiro.

E você se esquece até de se apaixonar.
Por alguém, por algo, por qualquer coisa, por viver.

Ai você vira esse pedaço de máquina. Sem saber pra onde ir, sem saber onde estar, seguindo o fluxo, mas um na multidão.

Bom mesmo era meu amor de treze anos.
Eu escrevia cartas pra ela e dava flores. Eu dizia que a amava e nada mais importava.

Meu amor de treze anos, treze anos atrás. Disse que me amava.
Aí a gente cresceu, a vida chegou e o amor passou.
Só vinte e seis anos, mas me sinto tão velho.

A vida te quebra em cacos, você pode até juntar,
mas remendado não é inteiro.
Amor de 13 anos nunca mais, fiquei velho.
Amor de 13 anos só aquele, de 13 anos atrás.

Eu podia voltar a falar com as pessoas no meio da rua.
Escrever cartas de amor, fazer novos amigos.

Vou ali ter treze anos
Jogar videogame, me lambuzar de sorvete.
Escrever cartas de amor.
E ser feliz.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Meu último desvario

Acordei com um sorriso no rosto, ela do meu lado ainda dormindo. Passei uns minutos admirando ela na cama, eu diria, tão apaixonado quanto fui desde que a conheci tantos anos atrás, mas era mentira, na verdade, cada dia que passava eu a amava mais.
Mas foi rápido, logo fomos atacados na cama. Um ser saltou sobre mim e se jogou entre a gente para nos acordar, “Papai! Papai!” O pequenino gritou. “Vem ver o que eu fiz!”  Ela reagiu com uma careta de quem foi acordada cedo demais, engraçado, as coisas mudam, eu que costumava reclamar de acordar cedo, ela falou ainda com os olhos fechados “Vão lá, vocês dois... Que eu quero dormir”.
Sai carregando ele da cama, na sala ele gritou “Olha o desenho que eu fiz!” Peguei a folha, admirei os rabiscos e falei “Meu Deus! Esse garoto será um grande artista!” E em seguida perguntei “E sua irmã onde está?” E o pequeno me respondeu “Deve estar no quarto dormindo ainda”.
Soltei ele na sala e fui lá ver a pequena, estava deitada na cama dormindo tão tranquila... peguei ela nos braços, o casal que sempre quisemos ter, mas a verdade é que não imaginávamos que iam acabar vindo os dois de uma vez só.
Aliás, sempre não, minto.
Quando te conheci nunca imaginei que teria filhos. Eu gritava pra todo mundo que jamais faria isso. Crianças? Dão trabalho demais. Nossa! São um gasto muito grande! Odeio crianças.

Soltei a garotinha dos meus braços, e tudo se passou na minha cabeça.

Despertando do meu devaneio acordado, me encontrei na minha cama sozinho olhando pro teto, e logo percebi que tudo que eu havia sonhado jamais iria se realizar. Mas por que não? O que de impossível havia nessa realidade tão simples.

Você.
Você partiu.

Entrou na minha vida, no meu coração. Mudou meus planos, me mudou. E foi embora. Sem motivo, explicação, sem porquê, você partiu e me deixou aqui só.
Você sempre disse que o meu maior problema era que eu não tinha planos. E bom, era verdade. Viver um dia de cada vez, Carpe Diem era meu lema. Não pensar muito no amanhã ou cinco anos na frente, eu era assim.
Mas é engraçado como as pessoas mudam. De repente, agora tudo que eu mais tenho são planos, para daqui há um mês, ou dois, e até para cinco anos no futuro. Eu agora queria uma família, e sonhava com o casal de filhos que você sempre falava. Eu que quis ter todas as mulheres, de repente, nos meus planos, só havia uma e mais ninguém. Se o problema era que vivíamos em mundos diferentes, de repente, tudo que eu queria era entrar no seu mundo e viver nele, não somente por você, mas sim, porque se tornou realmente o que eu queria.
Eu te perguntei, “Se pudesse mudar algo em mim, o que seria?” E você me disse, “Eu gostaria que você tivesse planos.” E agora tenho planos, todos os planos do mundo. Todos os planos que você sempre quis.
Mas...
Todos os meus planos são com você.
E você partiu.

Um lado de mim sempre fica esperando que você vá voltar. Que você consiga sonhar como eu sonhei, a mesma fantasia que se passou na minha cabeça, nós dois acordando juntos e um casal de filhos pulando por aí uns anos a frente. E que você quisesse tanto quanto eu torná-la realidade. Mas um outro lado meu, sabe que você nunca vai voltar.
O problema é que mesmo que você conseguisse ver o que sonhei, e voltasse para mim, se, ou quando isso acontecesse, pode já ser tarde demais.
Cada dia que passa eu fico mais distante, e dou mais um passo sem volta para longe de você. Hoje eu ainda me pergunto se ainda seria possível, mas amanhã eu talvez nem me pergunte mais. Amanhã provavelmente já vai ser tarde demais.
Você me pediu um tempo para pensar, um tempo sozinha, um tempo para você, um tempo para analisar tudo isso.
E eu resolvi te dar, resolvi me afastar o máximo que consegui, queria ver você melhor, queria que você pensasse mesmo bem no que fazer e tomasse a decisão certa. Mas aí eu fico pensando se eu ainda estarei aqui quando você tomar. Ou se você tomar.
E infelizmente eu acho que não.
Cada dia que passa eu me distancio mais, e a verdade é que já dei tantos passos para longe que nem sei mais se é possível voltar. E eu sei que em breve eu estarei definitivamente longe demais.
Mas enquanto eu amar, eu vou lutar por amor. Como disse Príamo, rei de Troia, “Eu já lutei tantas guerras na minha vida, várias por territórios, outras por poder, algumas por glória. Mas agora, eu acredito que lutar por amor, na verdade, faz mais sentido que todo o resto”.
Eu comecei a escrever esse último desvario na esperança de te falar que o que você queria que eu mudasse, havia mudado, e que agora poderíamos ser felizes juntos. E que se existiam motivos para dúvidas, agora não existiam mais. E que eu ainda queria tanto que você voltasse. Que eu ainda te amava. Que eu iria continuar lutando por amor e que tudo teria valido a pena.
Mas isso tudo foi ontem de manhã.
Agora, já é hoje à noite, eu me pergunto se já não ficou tarde demais.
Na verdade, eu acho que já é tarde demais.

E que esse último desvario por você, na verdade foi uma carta de despedida.

sábado, 1 de abril de 2017

Reescrevendo (Abr/2014) - Só havia você

Ela olhou para ele e sorriu
Foi só um segundo, um piscar de olhos.
E pronto, não precisava de mais nada.
O dano estava feito.

Ele olhou para ela, e ela desviou o olhar
Ficou com vergonha, como quem se esconde.
Mas sorriu
E pronto, não precisava de mais nada.

Ela olhou para ele
E foi difícil esquecer
Não sei por que

Ele olhou para ela e desapareceu
Não conseguia ver mais nada, só seus olhos
Passou a mão nos seus cabelos e se perdeu

Perdeu as mãos
Perdeu os sentidos
Perdeu a cabeça
E pronto, já estava perdido

Ela olhou para ele e o beijou
Não se arrependeu
Aí caro amigo, foi o fim.
Já não havia mais volta,
Nem estrada mais havia
Só havia você.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

A mais bela arte

Um dia encontrei um artista
Ele me entregou em mãos o mais belo dos pinceis, e disse:
Este pincel é mágico
Basta tocá-lo e você poderá desenhar o que quiser
Se tornará de todos o mais belo dos quadros
Nada há de se equiparar a tal beleza

Atônito, peguei o pincel em minhas mãos
Dediquei-me a somente um quadro
A mulher dos meus sonhos
O pincel em minhas mãos desenhava sozinho
Em pouco tempo já estava pronto
O quadro perfeito
A mais bela dama já criada na história da arte

Não contente o artista
Entregou em minhas mãos o mais belo lápis, e disse:
Esse lápis é mágico
Basta tocá-lo e você poderá escrever o que quiser
E se tornará de todos o mais belo dos poemas
Nada há de se equiparar a tal beleza

Maravilhado peguei o lápis em minhas mãos
Dediquei-me somente a uma poesia
A mulher dos meus sonhos
O lápis em minhas mãos escrevia sozinho
Em pouco tempo já estava pronta
A poesia perfeita
Falava da mulher mais bela já descrita
Na história da humanidade

Depois ele me deu ferramentas mágicas
E esculpi a mais bonita donzela
Entre as esculturas do mundo inteiro

Admirado eu olhava as minhas obras
E sabia que no universo não existia nada mais belo

Aí você passou do meu lado
E de repente toda arte que fiz
Tornou-se hedionda em um segundo

Mesmo com o pincel mais mágico,
O melhor lápis, as mais perfeitas ferramentas,
Ou o melhor dos artistas
Nada no universo conseguiria criar algo tão belo

Esqueci poesia, pintura, escultura
Esqueci o sol, a lua, as estrelas

As belezas do mundo inteiro
Só queria admirar você

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Reescrevendo (Mar/2011) - O Paladino Caído

Num reino antigo, próspero e belo havia um príncipe. Um paladino, guerreiro da justiça. Desde criança havia sido treinado na arte da cura e da espada. Era um guerreiro formidável. Conhecido como Licec da alma de prata, era admirado por todos do reino e onde passava todos reconheciam sua espada, seu rosto e seus cabelos prateados. Altruísta, sua bondade para com os outros era conhecida por todos.
Licec por diversas vezes entrou em combate com inúmeros demônios e sempre saiu vitorioso. Sempre, até aquele dia.
Era uma noite calma e silenciosa, Licec dormia em paz em seu castelo ao lado de sua amada princesa, o amor de sua vida.
De repente gritos, desespero, trevas. O reino inteiro estava em pânico. Dezenas de soldados caiam mortos por todos os lados do castelo. Um Lord, como eram conhecidos os mais poderosos demônios, atacava-os. Licec sabia o porquê, os Lords sempre atacavam com esse propósito, eles iam atrás dos mais poderosos guerreiros para convertê-los em cavaleiros das trevas. Ele era o alvo.
“Sou eu quem ele quer” foi o que pensou. Pegou sua espada e desceu correndo as escadarias da torre. Ao chegar lá embaixo, grande foi sua surpresa ao descobrir que o monstro já não estava mais lá. Um dos soldados o alertou:
- Ele voou até o seu quarto!
Licec voltou correndo, espada empunhada. Mas já era tarde demais, o destino já tinha envolvido suas cordas através do corpo dele e não havia mais nada que ele pudesse fazer. Ao chegar ao quarto não havia nenhum demônio lá, apenas a princesa.
- Licec da alma de prata, eu vim levar você.
Foram as palavras que saíram da boca dela.
- Não!
Um grito prolongado e desesperado, carregando nele todo o horror que havia no coração e nas lágrimas do guerreiro da alma de prata. O demônio havia tomado o corpo de sua amada.
A princesa foi ao encontro de seu cavaleiro, colocou a mão em seu rosto e disse:
- Mate-me.
Só o peso dessas palavras foram o suficiente pra derrubar sua espada e fazê-lo cair de joelhos no chão.
Um som agudo de destruição, seguido pelo barulho dos estilhaços da torre despedaçada. Com uma rajada de energia o demônio, ainda no corpo da princesa, destruiu o teto e as paredes da torre fazendo com que fosse possível ver todo o castelo daquele lugar.
Ele apontou para os soldados mortos e para o rastro de destruição que ele deixou ao passar como quem demonstra o quão grande era o estrago que ele era capaz de produzir em tão pouco tempo.
A sua escolha é simples paladino. Você pode matar sua amada e salvar o seu reino. Ou pode deixá-la viver a custo da vida de todas as pessoas dessa cidade.
-Não importa que escolha você faça, você já perdeu. Eu posso sentir... A partir do momento que minhas palavras o atingiram eu plantei a dúvida em seu coração. Meu objetivo já foi cumprido, a sua escolha é irrelevante. Você pode manter a vida da sua amada e seu egoísmo de não conseguir deixá-la partir trará por consequência a morte de centenas de pessoas e você não conseguirá lidar com isso e seu coração enfraquecerá. Ou você pode matá-la, porém mesmo salvando todas as outras pessoas, o sangue das vísceras dela nunca será lavado de sua alma. Você se culpará para sempre pela morte dela e mesmo que você tente perdoar a si mesmo com a desculpa de que a matou para salvar centenas de vidas de nada adiantará. Você nunca perdoará a si mesmo e seu coração enfraquecerá. Você já perdeu, agora faça a sua escolha, tome o tempo que quiser. Por enquanto, eu seguirei matando esses seres insignificantes como formigas que correm pra fora do formigueiro quando pisado. Algumas dezenas por vez.
Novamente o som agudo perfura o ar e uma rajada de energia atinge alguns soldados que caem mortos entre poças de sangue no chão. O que se passava na mente ou no coração de Licec era algo indescritível. Como um grande branco, um vazio. E não importava o quão forte fosse seu espírito, sua alma havia sido dilacerada. Seu corpo estava tão paralisado quanto seus pensamentos. E o demônio continua seu discurso...
- Você sabe que não há solução, sabe que é impossível me tirar do corpo da garota, sabe que eu posso matá-la quando quiser. E sabe que não fazer nada é a pior das opções. Como eu falei, o seu coração já foi atingido, seu espírito destruído e qualquer opção que você tome é irrelevante. Não fazer nada também é uma opção, assim eu só terei que matar tanto todos os cidadãos do seu reino, quanto a sua amada e neste momento seu coração estará pronto para se tornar um cavaleiro das trevas. Licec, você sabe por que os cavaleiros das trevas não temem a morte? Eles já estão mortos. Depois de hoje, sua alma, suas emoções e sua razão estarão tão abaladas que você desejará tanto ter morrido antes. Somente para não ter passado por este dia. Você lutará em meu nome, buscando constantemente nos campos de batalha seu descanso eterno. E a morte e somente ela será sua recompensa um dia. E saiba que se você tentar se matar agora, só facilitará o procedimento. Um ferimento físico é tudo que falta a seu corpo pra completar a sua transformação.
Silêncio... Destruição... Ele atacou mais uma vez.
- Licec, eu não tenho a noite toda. Já estão todos mortos, sua amada, seu reino, você. Ainda não entendeu? Vamos, mate-me! Eu destruí o seu reino, a sua amada, a sua vida! Tudo já está perdido! Onde está seu ódio? Odeie-me!  
O paladino da alma prateada pegou sua espada e fincou no peito de sua amada.
- Isso Licec. O demônio saiu do corpo dela pela sombra e materializou-se outra vez. A espada de Licec estava banhada em sangue. A princesa voltou a si, olhou nos olhos de seu amado uma última vez em vida, colocou as mãos na lâmina de sua espada e caiu ao chão. Seu corpo ensaguentando estirado no quarto com a espada fincada em seu peito. O Lord arrancou a espada do corpo da princesa, a lâmina dela tornou-se negra. Ele fincou a espada no coração de Licec e o paladino caiu de joelhos no chão.
- Cavaleiro negro.
- Sim, mestre.

- Levante-se. 

sábado, 31 de dezembro de 2016

Romances de verão (1)

John era viciado em romances de verão. Só conseguia amar por uma noite; talvez duas, no máximo, mas não mais que isso. Tinha uma queda por intensidade. Se fosse para enrolar duas ou três noites, perdia a paciência. John queria tudo para agora, se entregar de corpo e alma. Mas só por uma noite. Ou duas.
Ele dizia que foi uma reação natural do seu coração: toda vez que se decepcionava com o amor, amava por menos tempo. Ele dizia: “Eu não consigo amar menos, porque eu sou intenso demais. Mas eu não consigo mais continuar amando por tanto tempo”.
Teve uma namorada de cinco anos, uma de dois anos, uma de seis meses, uma de um mês. E agora já nem tentava mais. Namorar não era pra John. Mas seu lema era: "Que seja eterno enquanto dure. Que seja apenas uma noite, mas eu ainda amarei".                    
Até que houve aquele dia.

- Hey!
- Quanto tempo, John!

Encontrou uns amigos nos bares da cidade. Há um ano não se viam. Grande saudade. John achou ótimo revê-los. Conversa vai, conversa vem... Muitos sorrisos e alguns drinques.
Noite divertida.
Todos se despediram. Restavam apenas John e ela. Foram andando até a casa dele. Ela já ia chamar um táxi de lá. Mas, por que não uma última ice da geladeira, não é mesmo? Subiram. Conversaram pouco. O resto você já sabe. A verdade é que foi total surpresa para os dois.
Ninguém esperava.                       
Coisas loucas da vida que fazemos madrugada adentro.                       
John ficou com ela até de manhã. O relógio tocou e ele precisava ir embora.                        
Às vezes, a gente quer parar o tempo só um pouquinho, mas a vida não é assim.                       
John foi para o aeroporto e voltou para casa. Fim do mais belo romance de verão.                       
A verdade é que ele foi salvo pelo gongo, porque dessa vez ele queria encontrá-la mais de uma noite, ou duas.                       
Mas a vida é assim, nem sempre como a gente quer.
John a amou por uma noite. Apostou que ela nem notou.
Mas amou.
Até a noite acabar e ele pegar o avião rumo ao próximo romance de verão.
Até tudo passar.
Ou não.

Às vezes, simplesmente não passa.

domingo, 18 de dezembro de 2016

Reescrevendo (Out/2013) - A vida é tipo andar de bicicleta

A vida é tipo andar de bicicleta.
Quando você sai da faculdade ou do trabalho, é noite e você está de bicicleta, bate o cansaço.
Você passou o dia inteiro trabalhando, estudando, ocupado e agora ainda tem que encarar a viagem de volta pra casa. Você está bem cansado e realmente não está a fim de fazer exercício e se cansar mais.
Entretanto o mais interessante de estar de bicicleta é não ter opção. Você não tem outra opção a não ser subir na bicicleta e ir embora. Vai ficar lá esperando o quê? Você não vai ser teletransportado pra casa.
Às vezes a vida te cansa, porém, é como andar de bicicleta. Você não tem opção o negócio é seguir em frente e ir embora.
Não precisa ficar pensando muito, analisando muito, quanto mais você planeja, mais é difícil. Se estiver muito frio ou muito quente, se vai demorar pra chegar, se é longe...
Sobe na vida e vai embora que rapidinho você esquece tudo.
Quando se começa a pedalar, você rapidinho esquece e percebe que na verdade nem é tão ruim assim. Aliás, é até divertido.
É só dar o primeiro passo e pronto, você já está em alguma direção.
Às vezes você fica meio confuso sem saber pra onde ir, aonde quer chegar, fica planejando demais.
Esquece isso.
Mas assim eu não sei onde vou chegar...
Não sabe?
Pouco importa.
O importante não é o destino.
É o caminho.




quarta-feira, 30 de novembro de 2016

No meio do caminho

Atravesso as estradas pensando em você
Sigo por caminhos estranhos
Mas minha mente
Me leva aonde você está
Quando a gente vai em uma direção
Mas na verdade quer ir em outra
Quando a gente tenta fugir
Mas acaba voltando

E aí que parece que todos os caminhos levam até você
Todos os rostos que vejo por aí na rua são você
Todas as pessoas que queria encontrar
Na verdade
Era apenas você
Fico me perguntando por onde eu fui
Que não te encontrei

Aí eu me perco de onde eu queria ir
Se eu tinha um estrada
Se eu tinha um plano
Se eu ia pra lá
Se eu ia pra cá

Encontrei você
No meio do caminho
E pronto
Já era

Agora eu só consigo ir pra onde você for

Vou me embriagar em você de maresia
Você é minha ilha
Como o canto da sereia
Que me traz pro mar

Encontrei você
No meio do caminho
E resolvi voltar

Agora eu só consigo ir pra onde você for


sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Reescrevendo (Mai/2011) - O último dia de maio

Era de manhã. Ele saiu atrás de flores.
Caminhando pela rua parava pra cheirar cada uma delas.
Buscava o cheiro dela em tudo, mas não conseguia encontrar.
Depois de acordado, o cheiro dela tinha saído da roupa dele e agora só restava a lembrança.
Ele queria escrever algo pra ela, tipo... tipo...
Ele não sabia o que escrever.
Era como se qualquer palavra que saísse de sua boca, que fosse escrita pelas suas mãos fossem tentativas falhas, porque nada que ele pudesse dizer conseguiria descrever a beleza dela.
Não importa o que fosse dito, a sensação de tê-la em seus braços não era algo que ele conseguisse descrever. Talvez daqui a alguns anos quando fosse um escritor de verdade seria possível.
Mas hoje não. Hoje não havia o que dizer.
E já que o cheiro dela tinha partido de suas roupas, ele ia ter de se contentar com a imagem dela em suas memórias.
Mentira. Havia o que dizer sim.
Entretanto, certas vezes, nem o mais talentoso dos poetas consegue traduzir o que se passa no coração.
Aí não me resta nada a não ser tentar, no último dia de maio, por em papel meus sentimentos por você.
Mas não dá. 
Eles não cabem nessa folha. 
Transbordam na tinta papel abaixo. 
Me atravessam inteiro como teu cheiro.
Descomede-se meus sentimentos por você.
Sentir é incomensurável.


domingo, 30 de outubro de 2016

Você já quis voltar no tempo?

Era noite
Passava o vento frio nas minhas pernas
Sentado na janela do 13º andar
Escutando Radiohead

Você já quis voltar no tempo?

Um dia na quarta série
Eu caí, quebrei o braço
Doeu muito, morri de chorar
Queria voltar no tempo

Um dia na sexta série
Uma menina me fez um elogio
Eu disse que ela era idiota
Mas na verdade eu gostava dela
Queria voltar no tempo

Um dia no ensino médio
Gritei com meus pais
Xinguei meu irmão
Disse que eu odiava eles
Queria voltar no tempo

Um dia na faculdade
Tinha uma namorada
Sai pra festa, beijei outra
Queria voltar no tempo

Um dia sai do trabalho
Tava cansado, fui pro bar
Bebi demais, bati o carro
Queria voltar no tempo

Ontem

Era noite
Passava o vento frio nas minhas pernas
Sentado na janela do 13º andar
Escutando Radiohead

Pulei

Queria voltar no tempo

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Reescrevendo (Mar/2011) - O garoto que perdeu sua flor

- Arf... Arf...
Voltava correndo, afobado.
Como quem corre com medo de parar.
Pá! Tropeçou, desequilibrou, quase caiu.
Mas continuou correndo.
Chegou.
- Arf... Arf...
Olhou para um lado, para o outro, olhos no chão. O garoto tinha perdido uma coisa.
Era uma flor.
Ele tinha dado um nome pra sua flor. Era "a flor mais bela do mundo".
Ou apenas "Bela" para os íntimos.
Há uns minutos, ele tinha encontrado Bela.
Estava andando na pracinha e tinha uma árvore. Nela havia dezenas de flores bonitas. Ele ficou olhando... olhando...
Até que viu a flor mais bonita de todas, deu um sorrisão, esticou a mão e a tirou da árvore.
Ele sentou, ficou olhando pra flor, e foi nesse momento que ele a deu um nome.
Ele deu outro sorrisão, teve uma ideia genial.
Colocou a flor na orelha. Era um garoto. Se aparecesse algum adulto ali, ele provavelmente ia ser obrigado a tirar a flor da orelha porque "era coisa de menina".
Mas para a sorte dele, não tinha nenhum adulto chato por ali e o garoto pôde ficar com sua flor mais bela do mundo em paz.
Ficava olhando pra pracinha, pras árvores, pro céu e sorrindo o tempo todo.
Depois foi dar uma volta na pracinha e procurar alguém para brincar. Achou rápido. Correu, pegou, foi pego, se divertiu um bocado até cansar. E quando cansou, sentou e pôs a mão na orelha.
Mas Bela não estava mais lá.
O coração do menino logo passou a bater rapidamente. Ele se levantou num pulo e correu para a árvore onde tinha achado Bela.
Mas ela não estava mais lá, ela não estava em lugar nenhum. O garoto não achou sua flor e ficou muito triste.
Mas o pior nem foi tê-la perdido. O pior foi nem perceber quando a perdeu.
Foi nem conseguir dizer adeus.
O mais triste da história é que, chateado com a perda da flor mais bela do mundo, o garoto passou o resto do dia com a cabeça baixa. E esse dia que ele passou com a cabeça baixa o fez deixar de ver centenas de outras lindas flores que estavam nas árvores no meio do caminho.
Uma ou outra devem ter quase caído em cima dele e ele não percebeu.
Fim da história.

Quer dizer.
Ah! Uns anos depois o garoto cresceu. E um dia ele viu uma garota com uma flor na orelha.
Ele ficou encarando-a por uns segundos e se lembrou da história. Falou:
- A flor mais bela do mundo...
A garota olhou para ele sorriu, tirou a flor da orelha e perguntou:
- Essa? Acha ela tão bonita assim?
O garoto meio que acordou, olhou fundo nos olhos dela e disse:
- Ah. Não... Eu... Estava falando de outra flor na verdade.
E sorriu.
Ela sorriu também.
O sol estava se pondo nas costas deles.
Agora sim.

Fim da história. 

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Love is a broken bottle

It fell to the ground
Shattered in a thousand pieces
The dreams they spoke of are nothing
But dreams

Innocents on their youth
Will believe it is forever
Amateur writers
Typewrite it in poetry

Until one day or another  
Reality hits you 
First punch 
One man down

But the fallen refuses to stay in the ground
Taught never to give up
The knight straights himself up
Back to his feet  
He will rise from the shadows to fight once more  

And then, he continues
Like nothing ever happened
Now it is ok
Everything will be fin…

Ouch!
Right in the stomach
Again to the ground

Still
He abnegates quitting
Goes back again
Rises from his grave

Up and down
Up
and
down

Rises one more time

Just
to
fall

He dreams he will be the winner someday
So wrong he is
Reality is a bitch

Love is a broken bottle 
Broken again 
And again
Shattered into a million pieces
Until the glass becomes
Dust 

Like a tree during autumn
Wind hits it again
And again
Until all the leaves are on the ground
Nothing remains

The hope fades out
Day becomes night 
What happened?
What always happens
Over and over again

Love is a broken bottle
Crushed, fractured, pulverized
Smashed to smithereens
Damaged so many times
Until its glass became unrecognizable
Dust

And you cannot tell anymore

What is bottle
and what is dust
What is love
and what is
Whatever remained
In your pile of ashes

Then rise as phoenix
and try again

Love
Love is a broken bottle

That is probably why
I cannot ever have enough vodka

The bottle is broken