Nosso Castelo de Cartas

Nosso Castelo de Cartas

terça-feira, 28 de junho de 2016

Dois copos, um conto - O menino que não acreditou (Completo)

O menino que não acreditou (Parte 1)

Eu tenho dificuldades em começar as coisas. Gosto de pensar num mundo em que os planos mais mirabolantes e perfeitos podem dar certo. Tentar é sempre perigoso demais. Gosto de imaginar e sonhar. O Cebolinha, das histórias em quadrinhos que eu ouvia quando menino, tinha sempre uma boa ideia. E eu não. Eu sempre parecia separado. Tudo meu era separado. Separado. Deslocado. Escrevia meus registros de caderno nas folhas erradas. Perdia os bilhetes que vinham da escola. Não anotava recados. Eu nem percebia, mas sabia voar. E como eu voava.
Na hora das explicações da professora, dragões saltavam pelas janelas e eu era o único defensor que podia expulsá-los. E tinha que ser somente com o olhar. E tinha que ser sem ninguém perceber. Era segredo, era secreto e eu era Bond! James... Bo... Até a hora que a professora, aquela mais perfeita espiã russa, percebia e reclamava gritando comigo. O que você pensa que está fazendo? Esse garoto tem algum problema... Isso não é possível. E eu assistia aos dragões devorando toda a classe enquanto eu saía da sala.
O diretor era bem legal. Ele tinha um bigode engraçado e sempre sujo. Tinha sempre alguma mancha ou pedaço de algo nele. Eu me entretinha enquanto ele falava, cuspia e se sujava mais ainda. Era tão engraçado ver as pequenas gotas de saliva em sua barba que eu nem me chateava. Nunca levei um só bilhete dele até em casa. Ficavam pelo mundo, por aí. Eu sorria por dentro e fazia cara de desespero por fora. Deixava o diretor bigode gritar bem alto e pedia desculpas. Não por deixar toda minha turma morrer devorada e queimada por dragões, mas por ter a mente solta demais e deixar que qualquer brisa a levasse pra longe.
Brisa... Ela me levava pra longe... Mas não quero falar dela ainda. Isso é assunto pra depois.
A hora que o telefone tocava eu iniciava uma corrida contra mim mesmo. Se eu contasse três toques e não atendesse, algo terrível iria acontecer. Eu só não sabia o que era, mas sabia que era terrível. Eu derrubava as coisas no caminho e caía quase sempre, mas sempre dois toques. Nunca três. Às vezes dois e meio. Pelas minhas contas. Eu não gostava da voz de algumas pessoas. Os homens que perguntavam da minha mãe e as mulheres que procuravam pelo meu pai eram sempre mal atendidos e mesmo que eles estivessem ao meu lado, dizia que eles tinham saído. Eu vi na TV o que acontecia e não queria aquilo. Tomei uns três ou dez tapas por isso. Talvez mais.
Na hora de anotar o recado ou número ou o nome ou o recado mesmo, eu desenhava na folha e dizia hãram... Hãramm... Hummm... E o desenho ia sempre ficando mais legal conforme as pessoas continuavam falando e não desligavam. Eu desenhei um dragão uma vez e ele dizia à professora que era tudo culpa dela. Não deu tempo de desenhar mais nada.
Uma vez eu sonhei que sabia nadar. Eu nadava entre os peixes e tubarões e ia muito rápido. Acordei surpreso por descobrir que nós podíamos aprender as coisas sonhando. Passei o resto do mês aprendendo a voar. Eu deitava e ficava forçando o pensamento, imaginando a cena e tentava sonhar, mas o sonho não vinha. Outra vez, meio que sem querer, sonhei que voava, mas começava a cair depois de um tempo. Acordei e não levantei. Cobri o rosto com o lençol e continuei tentando sonhar que voava. Consegui! Finalmente! Aprendi a voar!
Não podia esperar! Assim que levantei, corri até a janela. Ia voar até a escola e todos veriam do que sou capaz. O diretor bigode ficaria muito surpreso. A professora ia pedir desculpas por me chamar de problema. A Brisa... Ah! A Brisa...

O menino que não acreditou (Parte 2)

Morava no 3o andar de um grande prédio, enorme lá fora, mas aqui dentro o apartamento era pequenininho. Bem embaixo da janela tinha uma caixa de ar-condicionado feita de cimento que ficava pro lado de fora do meu quarto. Parecia um perfeito apoio, passei pela janela e subi lá. Olhei pra cima, estiquei os braços pro lado, que nem aquela estátua gigante lá do Rio que esqueci o nome agora. Fechei os olhos, senti a brisa no rosto. Parecia um ótimo dia para voar.
 - MENINO! DESCE DAÍ AGORA!
Patrícia gritou.
Tomei um susto, virei de costas pra ver.
Mas já era tarde demais.
Nessa hora eu já estava no ar.
Erguido nos braços de Patrícia, que me tiraram do conforto de cima do ar-condicionado e da brisa lá fora. Me trazendo de volta pra realidade do meu quarto sem graça.
Eu expliquei pra ela que sabia voar, tinha aprendido. E ela me explicou uma história de que "sonho era diferente de realidade" e "voar era impossível" que eu achei completamente ridícula. Eu não acreditei em nada disso, era algo triste demais para ser acreditado. Até que ela me falou que mamãe ia me dar umas boas chineladas se eu tentasse voar de novo. Bom, aquilo sim era uma verdade incontestável. Com as chineladas de mamãe não se brinca, achei melhor deixar pra trás essa história de voar. No meu sonho era tão fácil, era só se jogar e errar o chão, mais nada. Mas, como já disse. Chineladas. Melhor não.
Hora de ir pra aula, toma banho, almoça, põe uniforme, amarra o tênis. Patrícia vai comigo, mas é pertinho, acho que já sou grande o suficiente pra ir sozinho, mas mamãe não deixa, melhor não. Ela se preocupa muito comigo, pena que está sempre tão ocupada.
Chego na escola, a primeira visão é sempre o exército maligno das forças do mal, ou, vulgos meninos grandes que te xingam e te batem sem motivo. Eu nunca vou entender o porquê, de verdade. Fico me perguntando se quando a gente fica adulto a gente descobre porque tem gente que gosta de xingar, bater, ou tratar os outros mal. Na real, acho que nunca vou entender isso mesmo.
Acho que eles ficam lá na frente pra fazer tipo um reconhecimento de terreno, analisando os mais fracos, ou quem eles vão mexer hoje. Olharam muito pra mim, altas chances de que hoje o escolhido seja eu, o negócio mesmo é rezar pra que não, é o melhor que posso fazer. Mamãe disse pra eu falar pra professora ou pra ela, não adiantou, papai disse pra eu fazer umas aulas de karatê, também não adiantou. A melhor estratégia quem descobriu fui eu mesmo, ficar na minha, fingir que nem existo, ser tão não importante que nem eles vão dar bola pra mim.
Se discutirem, eles tão certos e eu tô errado, se me xingarem, finjo que nem escuto. Pra que tentar lutar de volta? Ser forte pra se defender? Criar um escudo, tentar encarar aquilo da melhor forma possível? O negócio é fingir que não se importa, no começo, pode até parecer difícil, muito difícil, você meio finge que não se importa, mas acaba se importando no final. Mas com o tempo, vai ficando cada vez mais fácil, e fingir que não se importa vai se tornando não se importar de verdade.
Com os xingamentos eu já aprendi totalmente a lidar “Feio! Gordo! Burro! Cara de melão amassado! Jumento! Baleia azul! Idiota!”. Mamãe me disse uma vez que o que diziam de mim não se tornava realidade, podiam me falar mil vezes que eu era burro, mas eu não era burro, tirei até nota alta uma vez, ela falou. E o que as pessoas diziam de mim não muda quem eu sou. Eles podiam falar o que quiser que não ia mudar a realidade. Sabe o pior? Ela tinha razão, a verdade mesmo é que mamãe tinha razão uma porrada de vezes.  Aí, graças aos moleques que me batiam, e é claro, mamãe, eu aprendi uma lição que me serviu o resto da vida inteira. O que as outras pessoas pensam, ou falam de vim, é irrelevante, não ligo. Vi um velhinho falar uma vez num desenho assim “nada me atinge, virei rio, não importa quantas pedras joguem, a água não muda, se aparecem troncos, desvio por volta. Se o vento bate forte, a árvore gigante cai, mas o galho pequeno se entorta e volta como se nada tivesse acontecido”. Nada pode me atingir, sou invencível.
            PAFT!
            Menos um empurrão com toda força, isso aí não só pode como me atingiu sim, e atingiu legal. Bati de costas e com a cabeça na parede atrás de mim, meu lanche caiu no chão. Tocou o sinal pra hora do recreio e eu estava morrendo de fome. Mas esqueci que ainda precisava enfrentar o exército invencível do mal se eu quisesse comer hoje. Os olhos já enchiam de lágrimas. Mamãe falou que homens podiam chorar também, que não tinha problema. Mas acho que eu chorava demais.
            Um tio meu falou uma vez que a escola era a melhor época da sua vida, e eu imediatamente pensei na hora, “então ou tem algo de errado com a minha infância, ou com a sua adultez”. Imaginei, “não é possível, não tem como piorar”.
            A gente sempre pensa que não tem como piorar, por exemplo, agora, tomei um empurrãozão, bati a cabeça, meu lanche caiu no chão. Não tem como piorar, certo?

O menino que não acreditou (Parte 3)
 
            Se existe algo que eu aprendi, e que quero que você saiba, isso com certeza é: TUDO SEMPRE PODE PIORAR. Acredite em mim. Na maioria das vezes piora. E muito. Eu já estava com a cabeça doendo, com fome e pensando que nunca me livraria do exército do mal. Os terríveis meninos maiores e destruidores dos sonhos infantis. Eu nem ia me importar com tudo o que aconteceu, mas inevitavelmente uma grande quase-roda se formou ao meu redor. Eu fiquei assustado demais pra pensar. Assustado demais pra correr. No meio da galera que veio assistir a “briga”, ela estava com um olhar assustado. Parecia preocupada.
            Lá no canto estava a Brisa. No canto do meu olhar e em uma parte um pouco distante da roda. Eu queria dizer “oi”. Queria dizer “não fique assim”. Mas estava encrencado demais pra se preocupar com outra pessoa que não fosse eu mesmo e minha “briga”. Primeiro: por briga se entende algo que se disputa. Uma luta com dois lados. Aqui isso não era nada de “justiça”. Eu seria surrado sem nem a menor chance de revidar. Sempre assim. O pior seria isso tudo acontecer na frente da Brisa. Eu não queria que ela visse. Não queria. Dessa vez eu iria lutar. Lutar e vencer. Hoje seria diferente.
            Fechei meus punhos. A adrenalina corria no meu sangue. Principalmente depois da pancada que levei na cabeça. Comecei naquele instante a acreditar em mim. Eu podia. Podia e iria. Brisa iria se orgulhar de mim. Eu já me imaginava chegando depois da briga com um pequeno arranhão no supercílio. Ela viria toda preocupada e carinhosa, ficaria com lágrimas nos olhos, mas eu diria que aquilo não era nada. Iria sorrir e tocar seu rosto. Dizer que tudo o que eu fazia era por ela. Impossível que ela não se apaixone de volta. Impossível. O filme passou. Era hora da verdade.
            Fechei os punhos. Definitivamente, fechei os punhos. Um dos meninos maiores estava à frente de outros três integrantes do terrível exército do mal. Ele viu meu punho fechado e riu. Será possível que o pivete quer brigar. Ele perguntava. Era minha deixa. Olhei para Brisa. Sorri para acalmá-la e me inspirar. Corri em direção ao maior deles com toda a força que tinha concentrada no punho direito. Se você vai entrar numa briga, comece-a. Eu já sabia que iria ser difícil, mas dessa vez eu iria vencer. Acertei o soco em cheio bem na cara do primeiro deles.
Senti meu punho entrando aos poucos no rosto dele. Era poder. Aquela sensação era o poder. Meu coração elétrico. Palpitava de emoção. Ele balançou com o murro e eu percebi minha chance. Fechei o outro punho. Preparei o segundo soco. Dessa vez iria derrubá-lo. Eu sorria e já imaginava o medo infantil no coração das trevas do enorme garoto. Usei toda a força que tinha e avancei mais um passo, levantava o super-mega-ultra soco definitivo quando senti algo na minha orelha. Estranhei a princípio, mas em poucos segundos entendi. Era uma mão. Uma mão grande e pesada que quase deslocou minha cabeça da órbita que eu estava acostumado. Senti só algo quente escorrendo pelo meu pescoço. Quando olhei pra frente não vi mais muita coisa. Algumas mãos e pés me acertavam, mas eu só sentia tudo quente. Nada de dor. Tentei enxergar a Brisa, mas tudo estava muito escuro. Muito escuro.
Eu já disse: tudo sempre pode piorar. E piorava...

O menino que não acreditou (Parte 4 - Final)

E dessa vez as coisas ficaram bem ruins mesmo.
Eu acordei e não sentia mais nenhuma dor, foi engraçado. A escola estava um super alvoroço, uma multidão de gente pra lá e pra cá, os adultos com cara de preocupados e as crianças com cara de tô entendendo nada. As pessoas passavam correndo do meu lado, praticamente esbarrando em mim e ninguém me notava. Hey! Eu gritava! Mas ninguém me ouvia, o que estava acontecendo?
Encontrei Brisa sentada na escada chorando, me sentei do lado, cutuquei, disse oi, mas ela não me ouvia, abracei ela, e de repente ela virou a cara na minha direção assustada, e olhou diretamente pra mim, mas não me viu. O que estava acontecendo? Eu estava invisível? Isso tudo parece um pesadelo.
É isso! Estou sonhando! Levantei correndo, subi as escadas do prédio até o último andar, atravessei aquela grade com cadeado como se ela não existisse e estava no topo da escola. Uau, eu sempre quis estar no topo da escola, fui até a beiradinha do prédio e pus um pé pra fora. Só tinha um jeito de saber se eu estava sonhando. Lembra?
Nos sonhos eu podia voar.
Lembrei de Patrícia dizendo que não dava pra voar na realidade. Bom, sorte que eu estava sonhando porquê... Três, dois, um e....
Pulei.
Vush...            
Errei o chão, e comecei a voar.
Uau, voar era a melhor sensação do mundo. Eu sentia o vento na minha cara, voava cada vez mais rápido, cada vez mais alto, cada vez mais longe, em pouco tempo já não dava mais pra ver a escola lá embaixo, aquele monte de sirenes e confusões ficou distante. Eu estava voando pra cada vez mais longe de todos os problemas e tudo estava perfeito, eu nunca me senti tão leve, tão feliz.
Não dava pra ver mais nada, só o azul do céu e as nuvens. Tudo estava perfeito.
Wow!
            De repente tinha esse outro menino voando do meu lado. E sabe o que ele tinha? Asas!
- Caraca! Você tem asas!
- Hey! Sim, tenho – ele sorriu.
- Como você conseguiu essas asas?
- Ah, longa história, mas quem sabe você não consegue umas também?
- Sério mesmo? Eu quero muito! Eu quero asas também.
- Tem certeza que você quer asas?
- Sim!
- Mas, então, eu tenho que te explicar uma coisa. Lembra quando a sua mãe disse que você só podia sair pra brincar depois que tivesse terminado a tarefa de casa?
- Lembro sim.
- Então, tudo na vida é assim, se você quer algo, você precisa dar algo, fazer algo, abrir mão de outra coisa.
- Sei, mamãe já me falou isso também.
- Então, asas, são algo muito especial. Se você quiser suas asas, vai ter que abrir mão de todas as coisas que você tem, tudinho, a escola, seus amigos, tudo.
- Então você tá me dizendo que eu não vou mais precisar voltar pra lá?
- Isso mesmo!
- Wow! E ainda vou ganhar asas? Maravilha! Eu abro mão de tudo sim, não quero voltar, pode me dar as minhas asas!
- Mas olha só, preste bem atenção, abrindo mão de tudo, você vai estar abandonando não só as coisas ruins, mas as coisas boas também.
- Que coisas boas?
- Por exemplo, lembra do seu hamster?
- Bolinha de pelo? Claro que lembro!
- Então, vai ter que deixar bolinha de pelo pra trás...
- É? Poxa....
- E todos os seus brinquedos, e jogos que tanto gosta.
- É? Mas eu ainda nem terminei “Cruzando o tempo, uma nova aventura IV” como eu vou saber o final?
- Não vai.
- E o novo filme de super-herói que vai sair esse ano! Esse eu vou poder ver né?
- Também não.
- Poxa, assim tá difícil, essas asas tão saindo muito caras.
- Você pensou que era fácil ganhar asas? – sorriu – Mas, veja só, se você decidir voltar eu tenho que te avisar uma outra coisa também.
- O que é?
- Vai piorar. Terão dias bons e dias ruins, acontecimentos melhores e piores. Mas no geral, vai piorar bastante.
- Você tá parecendo meu tio, que dizia que ser adulto era bem pior que ser criança.
- Exatamente, seu tio estava falando a verdade. Todos os desafios, os problemas, as tristezas, estão apenas começando. Viver não é fácil, e sim, as coisas vão piorar, e ser adulto é bem mais difícil que ser criança.
- Mas então, vale a pena voltar?
- Isso é você que tem que decidir, não eu.
- E a Brisa?
- Vai ter que abrir mão dela também.
- Entendi... sabe o que eu acho?
- O que?
- Eu acho que você está errado, eu não acredito em nada disso aí que você falou.
- Não?
- Não.
- E você quer voltar então?
- Sim, já enjoei desse sonho.
- Tudo bem. Segure na minha mão.
Segurei
- Eu avisei, que não ia ser fácil, não avisei?
- Sim.
- Mas você não acreditou.
- Não. Pode falar pra todos os seus amigos, eu sou o menino que não acreditou.
Ele sorriu.
- Tudo bem.
E soltou a minha mão
AAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHH!
            De repente eu não sabia mais voar, e caí, caí do céu tão rápido como se eu pesasse uma tonelada.
Lembro do meu rosto olhando pro chão chegando cada vez mais perto e... fechei os olhos.
Abri os olhos.
Eu devo ter mesmo caído do céu, porque a dor de cabeça que eu tinha condizia com o acontecimento. Na verdade, não só a cabeça, mas tudo doía, os braços, as pernas, o corpo inteiro. Mamãe e papai estavam lá também, eles sorriram quando eu acordei, alguém foi chamar um médico.
No outo dia, quando tudo se acalmou, mamãe disse que tinha uma coleguinha da escola que veio me ver, era Brisa.
Fiquei nervoso, não esperava. Ela estava tão feliz que eu estava bem. Ela pegou o celular e me mostrou algo sorrindo.
- Hey, lembra daquele sonho que você me contou? Que sabia voar?
- Claro, lembro sim.
- Então, olha isso aqui, eu procurei no google como faz pra voar.
- E o que ele disse? Dá pra voar sem ser em sonho?
- Dá sim, o google falou que é só voar de asa delta.
- Sério?
- Sério!
- Vamos voar de asa delta?

- Vamos! 

domingo, 19 de junho de 2016

Reescrevendo (Nov/2009) - Um Pensamento pra Sempre

Pra sempre é uma expressão que chega a ser engraçada.

Ela reflete a ingenuidade do significado atribuído pelas pessoas à "certeza".

Assim como sempre, nunca, tudo, nada. Ou uma certa expressão com três palavras.

Eu tenho minha própria definição de "pra sempre", que eu acho bem difícil de explicar.

É como se eu soubesse que o "pra sempre" vai acabar. Mas ainda assim, ele não deixa de ser "pra sempre".

É como se um relaciomento de vinte anos, e um olhar de um segundo. Os dois podem ser "pra sempre" e sim, eles terminam.

Mas nunca deixaram de ser "pra sempre".

O legal disso é poder dizer que você será feliz pra sempre, que vai amar pra sempre.

E ter a certeza que está sendo sincero.

E enquanto qualquer um vê algo que deveria ter durado "pra sempre" acabar, entra em desespero e guarda mais uma lembrança triste.

Eu olho pra qualquer coisa que passou, e tenho a certeza que durou pra sempre.

Dias "pra sempre" felizes a todos vocês.

terça-feira, 31 de maio de 2016

Dois copos, um conto - O menino que não acreditou (Parte 3)

          Se existe algo que eu aprendi, e que quero que você saiba, isso com certeza é: TUDO SEMPRE PODE PIORAR. Acredite em mim. Na maioria das vezes piora. E muito. Eu já estava com a cabeça doendo, com fome e pensando que nunca me livraria do exército do mal. Os terríveis meninos maiores e destruidores dos sonhos infantis. Eu nem ia me importar com tudo o que aconteceu, mas inevitavelmente uma grande quase-roda se formou ao meu redor. Eu fiquei assustado demais pra pensar. Assustado demais pra correr. No meio da galera que veio assistir a “briga”, ela estava com um olhar assustado. Parecia preocupada.
            Lá no canto estava a Brisa. No canto do meu olhar e em uma parte um pouco distante da roda. Eu queria dizer “oi”. Queria dizer “não fique assim”. Mas estava encrencado demais pra se preocupar com outra pessoa que não fosse eu mesmo e minha “briga”. Primeiro: por briga se entende algo que se disputa. Uma luta com dois lados. Aqui isso não era nada de “justiça”. Eu seria surrado sem nem a menor chance de revidar. Sempre assim. O pior seria isso tudo acontecer na frente da Brisa. Eu não queria que ela visse. Não queria. Dessa vez eu iria lutar. Lutar e vencer. Hoje seria diferente.
            Fechei meus punhos. A adrenalina corria no meu sangue. Principalmente depois da pancada que levei na cabeça. Comecei naquele instante a acreditar em mim. Eu podia. Podia e iria. Brisa iria se orgulhar de mim. Eu já me imaginava chegando depois da briga com um pequeno arranhão no supercílio. Ela viria toda preocupada e carinhosa, ficaria com lágrimas nos olhos, mas eu diria que aquilo não era nada. Iria sorrir e tocar seu rosto. Dizer que tudo o que eu fazia era por ela. Impossível que ela não se apaixone de volta. Impossível. O filme passou. Era hora da verdade.
            Fechei os punhos. Definitivamente, fechei os punhos. Um dos meninos maiores estava à frente de outros três integrantes do terrível exército do mal. Ele viu meu punho fechado e riu. Será possível que o pivete quer brigar. Ele perguntava. Era minha deixa. Olhei para Brisa. Sorri para acalmá-la e me inspirar. Corri em direção ao maior deles com toda a força que tinha concentrada no punho direito. Se você vai entrar numa briga, comece-a. Eu já sabia que iria ser difícil, mas dessa vez eu iria vencer. Acertei o soco em cheio bem na cara do primeiro deles.
Senti meu punho entrando aos poucos no rosto dele. Era poder. Aquela sensação era o poder. Meu coração elétrico. Palpitava de emoção. Ele balançou com o murro e eu percebi minha chance. Fechei o outro punho. Preparei o segundo soco. Dessa vez iria derrubá-lo. Eu sorria e já imaginava o medo infantil no coração das trevas do enorme garoto. Usei toda a força que tinha e avancei mais um passo, levantava o super-mega-ultra soco definitivo quando senti algo na minha orelha. Estranhei a princípio, mas em poucos segundos entendi. Era uma mão. Uma mão grande e pesada que quase deslocou minha cabeça da órbita que eu estava acostumado. Senti só algo quente escorrendo pelo meu pescoço. Quando olhei pra frente não vi mais muita coisa. Algumas mãos e pés me acertavam, mas eu só sentia tudo quente. Nada de dor. Tentei enxergar a Brisa, mas tudo estava muito escuro. Muito escuro.

Eu já disse: tudo sempre pode piorar. E piorava...

terça-feira, 10 de maio de 2016

Reescrevendo (Fev/2010) - Uma carta a 10 de julho de 2008

Querida Amanda, me desculpe, eu não vou voltar. Mande lembranças ao Jeff e um grande abraço para Cadu. 
Deixe-me contá-la. Era um simples 10 de julho do ano de 2008. O dia fatídico. Tudo mudou. Os crepúsculos e as luas cheias nunca mais foram as mesmas.
Primeiro, eu me apaixonei. Não foi a primeira vez e você sabe disso. Mas você entende que isso por si só não muda nada. Segundo, eu a amava. Ela também amava... Mas era o Lucas.
Normal até agora. Isso tudo ainda não muda nada.
Era apenas mais um caso comum de triângulo amoroso e uma história super sem graça de três adolescentes de 15 anos que mal merecia ser escrita no diário dela. Seu nome? Marina. Belo como as ondas do mar e os versos que cantaram por Mariana. E como todas as outras muitas (uma ou duas) garotas que conheci na vida. Eu jurei que ela seria minha. Frase obsessiva, possessiva e, sejamos sinceros... infantil. Hoje, já faz dez anos. E você deve estar se perguntando agora por que eu não vou voltar. E que merda isso tem a ver com 10 de julho de 2008.
Eu mudei. Sim, foi isso. E não foi hoje, não foi ontem. Foi naquele dia fatídico. E não foi você, nem eu. Foi ela: Marina. Um vestido amarelo, uma flor que eu não sei o nome na cabeça. Cabelos ao vento, câmera em slow motion... Eu ainda lembro-me dela dessa forma.
10 de julho de 2008.
Eu acordei e o sol forte me dizia que aquele ia ser mais um dia do tipo “igual a todos os outros”. Por mais incrível que pareça, estava enganado.
Engraçado que a vida não parece se enganar se tomarmos como pressupostos alguns fatos, fatídicos ou não. Engraçado é como o dia aparentava não se importar com o que eu pensava sobre isso também. Isso supus, logo ao levantar. Aquele momento de luta contra o eu interior que te fala alto e com autoridade: “você estará sempre com o cansaço que quero que esteja e tudo pode esperar mais uns dez minutos”. Minutos estes suficientes para que eu não voltasse a ouvir o despertador (que por algum detalhe sórdido do destino era a minha televisão). Dormi. Acordei com as palavras e suor no meu corpo.
Elas diziam “Marina”.
Levantei ainda sob forte luta. E, mesmo dormindo demais, parecia que tinha ficado ainda mais cansado que a primeira vez. Tinha levado uma surra. Às vezes a vida me bate forte demais. Levantei dizendo-me que aquele seria mais um dia cansativo e coisas do tipo.
Não fui à escola. Tempos fáceis esses de criança. Assim pensam todos. Para mim era viver num drama. A escola parecia um velho internato de aberrações que, por mais que fossem assustadoras para mim, eu, com os super-poderes que julgava ter, conseguia assustá-las ainda mais. Ninguém gostava de mim. Assim eu pensava. Eu não gostava de ninguém. Isso estava prestes a mudar.
Decidi marcar algo, qualquer coisa que me livrasse daquele momento e daquele lugar. Que me levasse para longe. Que me deixasse disperso por um tempo. E desperto. Dormir eu não conseguiria mais. E tem horas que até os jogos conseguiam me cansar de uma maneira que me assustava às vezes. Sei lá. A vida não tinha mais graça.
Liguei para o Alberto. Disse o de sempre. “Tédio?” – perguntei. “Tédio” – respondeu. Ele também era bem previsível, assim como eu fui. Talvez seja. Você consegue me responder isso, Amanda? Lembro daquela frase de uma autora que dizia que perdeu sua face em um espelho. Devia ser um espelho desses bem velhos que ela nem lembra onde deixou para ir procurar.
Talvez eu me sinta assim. Perdi meu coração naquele dia. E isso foi só o começo de uma terrível história de perdição. Nós começamos a perder e parece um esporte tão divertido. Esquecemos de parar. Esquecemos muitas coisas no caminho, Amanda.
Saímos. Cansados de tudo e todos. Fomos a lugares encontrar tudo e todos. Cinema? Sim, parece uma boa. O que acha? Ah! Meu amigo... Não acho nada... Conversei com um rapaz novo da turma ontem. E aí? Ele parecia mais velho. Pensou que ia te entender? Pensei. E...? E ele parece gostar de tudo que a maioria pré-adolescente gosta... Ele me dá nojo agora. Não tente... Nunca mais... Talvez alguém de seus 45 anos? Alberto... Um dia você vai entender que nascemos mortos.
Não eram frases de crianças de 15 anos. 
Aumente o drama, DJ. Alguém dizia isso? Chegamos. Lugar comentado. Todos fugiam da escola para lá. Todos apareciam depois. E nós fomos, mesmo não querendo encontrar ninguém (Oh! Quão errado eu estava... Eu queria encontrar Marina... Mesmo sem nem conhecê-la). Algumas pessoas falavam conosco. Outras não. Outras esbarravam. Não começamos nenhuma briga. Você lembra desse meu jeito de não entrar em certas coisas que sei que vou perder, não é mesmo?
Continuamos. A fila crescia. Tédio. Tédio. Tédio. Ou o quê? Foi num pulo. Foi num momento. Foi num lançar de olhar. Eu a vi passar por mim. Seu nome?
Marina, bela como as ondas do mar e os versos que cantaram por Mariana. E como todas as outras muitas (uma ou duas) garotas que conheci na vida, jurei que ela seria minha. Frase obsessiva, possessiva, e, sejamos sinceros... Infantil.
Mas era uma promessa.
Não sabia seu nome até essa hora. Quem é ela? Quem é ela, Alberto? Ela quem? A menina do vestido amarelo! Ok. Qual delas? Aquela... Com a flor no cabelo... A mais linda de todas... Ela? Não seja idiota. Ela nunca vai te olhar. Seu nome é Marina. Ela nunca olha para ninguém. É um desafio para qualquer um.
Aquela palavra.
Eu podia ver seus lábios se movendo naquele momento dizendo:
- Desafio.
Que palavra aterradoramente linda. Eu disse a Alberto. Adoro desafios. E parti em sua direção. Neste momento, eu perdi meu coração...
“Adoro desafios” – eu comecei aquela noite dizendo. Pergunte a Alberto qual foi a minha última frase naquela noite: “Alberto, eu odeio desafios!”.
É engraçado lembrar como as opiniões de um adolescente mudam em uma noite. Na verdade... As opiniões de qualquer pessoa muitas vezes mudam na mesma noite.
Hoje? Ah... Amanda, você sabe que eu adoro desafios. Aquelas minhas palavras no fim da noite foram totalmente influenciadas. Por quem?
Marina.
Eram 23h54, 10 de julho de 2008. 
Três minutos antes de Marina passar por mim. Eu ainda lembro como se fosse há cinco segundos...
Eu virei para Alberto e disse:
- Já é quase dia 11.
E ele me respondeu com aquela cara de “o que você disse?” que só o Alberto sabe fazer.
- Ainda é dia nove, quase dia 10. Tá querendo adiantar um dia de vida?
E eu respondi a Alberto com aquela cara de “sério?” que só eu sei fazer.
- Um dia a mais, um dia a menos... Que diferença faria?
Ainda era dia 9, pelo menos por mais alguns minutos. 
Às 23h57, eu cheguei à conclusão de que deveria ir embora; afinal, faziam apenas três minutos que eu havia olhado o relógio e pareciam trinta.
Então alguém apertou o slow motion e trinta segundos depois eu dei um tapinha no ombro de Alberto e parti em direção àquela flor... Qual era mesmo o nome daquela flor no cabelo dela?
Meia noite, 10 de julho de 2008. Eu chamei a atenção dela, tentei segurar sua mão. Obviamente, ela puxou a mão bem rápido, eu já previa isso. Ela virou o rosto para mim. E me encarou nos olhos, durante... sei lá quantos segundos foram. Mas aqueles segundos me fizeram acreditar, mais ainda, que ela havia nascido para mim.
Eu olhei para ela e disse:
- Teus olhos são tão lindos.
E ela virou para mim e disse:
- Todo mundo me diz isso.
Meia noite e cinco minutos de 10 de julho de 2008. Marina me deu as costas e partiu. Meia noite e meia, eu pilotava a moto; 15 anos e eu não tinha carteira. Claro. Mas meu pai liberava às vezes. Era só ir pelos caminhos certos, nunca dei de cara com polícia. Alberto atrás, ele não colocou nenhuma objeção em ir para casa naquela hora.
Nem se colocasse. Não havia nada a dizer. Não havia nada a fazer. Partir. A palavra ecoava. Vazia. Sem vontade. Partir. E parti, mesmo sentindo que o mais importante eu deixava.
Continuamos a nossa viagem de moto. Insegura na visão de alguns. O que quer que seja na visão de outros. Só palavras e julgamentos e eu não queria me julgar naquele momento. Sabe por quê? Os próximos minutos foram daqueles que te marcam. Marcam a sua vida inteira.
Chego até a sentir ecoar 10 anos depois quando se escreve uma carta a uma grande amiga. Amanda, tento te dizer tudo, porque sei que Alberto não entendeu. Ele estava muito à frente de tudo. Acho que não entendia sentimentos infantis. Desses bobos que a gente se entrega e pensa: “tudo pode acabar agora... Nada importa... Pois sou feliz e tudo eu tenho. O mundo é meu. E todo sentimento é reflexo de mim. Ecoando no universo”.
Eu olho no retrovisor, vem outra moto a toda velocidade, e me ultrapassa. Tão certo quanto tudo o mais... A minha moto nunca acompanharia aquela. Na frente, um cara alto e forte. Atrás, uma garota de vestido amarelo.
O vento batia forte no vestido. E o mundo girou mais lentamente, embora nenhum físico ou astrônomo reconhecido tenha percebido. Mas naquele instante eu sabia que algo iria acontecer.
A ultrapassagem foi pela direita adicionada de um corte imprudente para a esquerda, sem sinal nem nada. Ultrapassagem numa curva... Bem esperto, não? E sim. Era uma curva. Daquelas que não se pode ver se vem outro carro na outra mão. As chances de vir, é claro... Mínimas... Ou você achou que viria, Amanda?
Esperta você... Pois é... Vinha. Um caminhão enorme. O caminhão passou por cima e não sobrou moto, nem cara alto, nem menina do vestido amarelo. Eu fiz a curva. Tranquilo.
Marina está morta.
A moto reduziu a velocidade gradativamente... Até que Alberto bate em meu ombro dizendo:
- Tá acordado, cara?
Eu não sei o que passava diante dos meus olhos. Vez ou outra eu me perdia no que pensava. Perdia a linha enquanto via qualquer coisa. Talvez o automatismo no dirigir, pois mesmo jovem já era habitual.
Mas era só para me enganar. Faltava ela, Amanda. Ela era a pior dentre todos os seres que conheci. Sem pena ou dó de minha pobre existência, ela roubou cada um dos meus dias ao roubar meu coração. Sabe o pior? Eu a agradecia... Pensava em toda sua pureza impura que me corrompia. Eu ansiava por mais um segundo com ela. Diria as palavras certas e a faria me amar. Como nunca amou.
Como nunca amei.
Por que nunca amei, Amanda? Por que nunca pude me entregar a ninguém como a ela? E naquela moto o homem com ela cheirava a competição. Que eu perdi. Eu sempre perco antes de concorrer. Foi sempre assim. Eu pisco os olhos e volto à realidade. E percebo que toda aquela cena que eu vi em minha cabeça foi uma tentativa de me fazer acreditar que Marina estava morta para mim.
Bom, foi uma tentativa bem inútil. 
Ainda restavam 23 horas e 30 minutos desse 10 de julho de 2008. Que eu pensei que já tivesse acabado. O dia 10 continuava. Eu queria ver Marina uma vez mais. Adriano uma vez me disse:
- Coração é terra que ninguém pisa...
Eu nunca o ouvi.
Corri. E fui me entregar...
Queria que aquele dia 10 nunca mais terminasse. Eu pensava: “Assim Marina estará sempre em mim”. Eu adormeci, Marina permaneceu até em meus sonhos. Acordei cedo: eram 8h de 10 de julho de 2008. Ao sair do quarto, notei as caixas de papelão na sala. Havíamos nos mudado há pouquíssimo tempo. Por causa do emprego do meu pai, passávamos, às vezes, apenas um mês na mesma cidade. Eu nunca entendi aquilo. No começo, eu não gostava, porém me acostumei. Estranho. Eu não lembrava daquelas caixas de papelão ali no dia anterior. Pensei que já havíamos terminado toda a mudança.
Eu estava só em casa, meus pais haviam saído cedo. Tomei café, resolvi ir à praia. Eu gostava daquela cidade que tinha uma praia tão perto de casa. Mas eu estava ali há tão pouco tempo, que nem lembrava o nome da cidade direito; às vezes eu a esquecia ou confundia com alguma outra onde eu havia morado.
Cheguei à praia às 8h30. Sabe quem estava lá?
Sim. Marina. O que aconteceu? Eu me lembro da primeira frase que falei, desculpa para puxar papo, para sentar do lado dela.
- O mar é mesmo muito lindo.
Alguns segundos depois, eu pensei: “Já sei o que ela vai dizer: ‘Todo mundo me diz isso’”.
Mas ela não disse. Ela disse:
- Verdade. 
E sorriu.
Ah, eu não vou entrar em detalhes... Eu sentei ao lado dela, disse alguma coisa, ela respondeu alguma outra coisa. Conversa vai, conversa vem, eu acho que ela nem lembrava que eu havia falado com ela na noite anterior. Também... quantos garotos será que falaram com ela na noite anterior? Não me admira ela não lembrar o meu rosto. Aliás, melhor assim. Mas naquele dia... Ah, naquele dia eu era o único... Eu não lembro o que eu disse dessa vez. Mas ela sorriu de novo. Eu não consigo esquecer aquele sorriso.
Eu a beijei.
Ela me beijou.
Marina.
Slow motion.
E naquele momento eu percebi que toda a minha vida tinha valido a pena. Que eu poderia morrer naquele momento, sem me arrepender de nada do que havia feito até então. Tudo por aquele momento.
Era hora do almoço e nos despedimos. Ela sorriu, foi almoçar em casa e eu também. Combinamos de nos encontrarmos no dia seguinte, naquele mesmo local, naquele mesmo horário. Eu cheguei em casa, cara de “garoto mais feliz do mundo”. Havia bem mais caixas em casa. Estranho.
Minha mãe não fez almoço: mais estranho ainda. Havia umas marmitas na mesa. Ela me viu e me contou algo perfeitamente normal – eu já estava acostumado.
- Filho, vamos nos mudar hoje ainda. Você sabe como é o trabalho do seu pai... Coma uma marmita. Eu não tive tempo de fazer almoço. Arrume suas coisas logo.
Marina. Ecoava em minha cabeça.
Então, eu acordei pra realidade.
- Mãe, vamos nos mudar hoje?
- Sim. Vamos, filho.
Eu corri. Minha mãe gritou algo. Eu não escutei. Eu corri pra praia.
Ela não estava lá.
Eu perguntei às pessoas ao redor, ninguém sabia, ninguém tinha visto. Eu corri desesperado por todos os lugares da cidade. Nada. Eram 18h, 10 de julho de 2008.
Voltei para casa me arrastando. Nenhum sinal de Marina. Levei uma bronca horrível dos meus pais.  Eu não lembro nada do que eles disseram. A minha cabeça ia explodir. Ela não conseguia processar a informação de que eu nunca mais veria Marina.
Poucas horas depois, entrei no carro, fomos embora. Nem lembro em qual cidade eu morei depois dessa, mas foi pouco tempo também. Nem me lembro de mais nada.
Depois desse dia, eu vivi uns anos sem viver. Eu esqueci completamente o nome da cidade onde eu havia conhecido Marina. Na verdade, eu me esforcei para esquecer. Eu sabia que eu não podia voltar lá. No final, eu queira que fosse apenas uma lembrança. Um sonho.
Marina... Ela não existiu de verdade. Foi só um sonho.
Não foi?
O tempo passou. Ele não apaga as feridas, mas cicatriza. E eu consegui levar uma vida normal. Eu conheci você, Amanda... Mas sabe o que aconteceu?
Ontem eu precisei viajar. Pois é, acabei me acostumando e fui trabalhar com meu pai. Graças a Deus, hoje em dia eu preciso viajar bem menos que ele naquela época.
Hoje estou aqui, na praia. São 8h20. Estou te escrevendo essa carta, explicando por que eu não vou voltar. Por causa de 10 de julho de 2008. Porque ontem eu resolvi dar um pulinho na praia dessa cidade.
Eu lembrei. Foi aqui. Eu tenho certeza. Foi aqui onde eu sonhei com Marina.
10 de Julho de 2008.
Não me pergunte como, mas eu sabia. Eu pedi demissão ontem mesmo. E hoje de manhã resolvi te escrever essa carta. “Querida Amanda, me desculpe, eu não vou voltar. Mande lembranças a Jeff, um grande abraço para Cadu. Deixe-me contá-la. Era um simples 10 de julho do ano de 2008. O dia fatídico. Tudo mudou. Os crepúsculos e as luas cheias nunca mais foram as mesmas”.
Eu vou ficar por aqui. Eu vou arriscar tornar aquele sonho realidade. Por menor que sejam as chances. Eu sei, eu tenho certeza. Eu vou encontrar Marina.
Terminei. Guardo a carta no envelope. Ponho dentro da minha mochila e olho pro mar. Tem uma garota olhando pro mar também, sentada na areia. Tem uma flor no cabelo dela... Qual era mesmo o nome dessa flor? Eu sentei do lado dela. Precisava dizer algo para puxar papo.

- O mar é mesmo muito lindo.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Dois copos, um conto - O menino que não acreditou (Parte 2)


Morava no 3o andar de um grande prédio, enorme lá fora, mas aqui dentro o apartamento era pequenininho. Bem embaixo da janela tinha uma caixa de ar-condicionado feita de cimento que ficava pro lado de fora do meu quarto. Parecia um perfeito apoio, passei pela janela e subi lá. Olhei pra cima, estiquei os braços pro lado, que nem aquela estátua gigante lá do Rio que esqueci o nome agora. Fechei os olhos, senti a bria no rosto. Parecia um ótimo dia para voar.
 - MENINO! DESCE DAÍ AGORA!
Patrícia gritou.
Tomei um susto, virei de costas pra ver.
Mas já era tarde demais.
Nessa hora eu já estava no ar.
Erguido nos braços de Patrícia, que me tiraram do conforto de cima do ar-condicionado e da brisa lá fora. Me trazendo de volta pra realidade do meu quarto sem graça.
Eu expliquei pra ela que sabia voar, tinha aprendido. E ela me explicou uma história de que "sonho era diferente de realidade" e "voar era impossível" que eu achei completamente ridícula. Eu não acreditei em nada disso, era algo triste demais para ser acreditado. Até que ela me falou que mamãe ia me dar umas boas chineladas se eu tentasse voar de novo. Bom, aquilo sim era uma verdade incontestável. Com as chineladas de mamãe não se brinca, achei melhor deixar pra trás essa história de voar. No meu sonho era tão fácil, era só se jogar e errar o chão, mais nada. Mas, como já disse. Chineladas. Melhor não.
Hora de ir pra aula, toma banho, almoça, põe uniforme, amarra o tênis. Patrícia vai comigo, mas é pertinho, acho que já sou grande o suficiente pra ir sozinho, mas mamãe não deixa, melhor não. Ela se preocupa muito comigo, pena que está sempre tão ocupada.
Chego na escola, a primeira visão é sempre o exército maligno das forças do mal, ou, vulgos meninos grandes que te xingam e te batem sem motivo. Eu nunca vou entender o porquê, de verdade. Fico me perguntando se quando a gente fica adulto a gente descobre porque tem gente que gosta de xingar, bater, ou tratar os outros mal. Na real, acho que nunca vou entender isso mesmo.
Acho que eles ficam lá na frente pra fazer tipo um reconhecimento de terreno, analisando os mais fracos, ou quem eles vão mexer hoje. Olharam muito pra mim, altas chances de que hoje o escolhido seja eu, o negócio mesmo é rezar pra que não, é o melhor que posso fazer. Mamãe disse pra eu falar pra professora ou pra ela, não adiantou, papai disse pra eu fazer umas aulas de karatê, também não adiantou. A melhor estratégia quem descobriu fui eu mesmo, ficar na minha, fingir que nem existo, ser tão não importante que nem eles vão dar bola pra mim.
Se discutirem, eles tão certos e eu tô errado, se me xingarem, finjo que nem escuto. Pra que tentar lutar de volta? Ser forte pra se defender? Criar um escudo, tentar encarar aquilo da melhor forma possível? O negócio é fingir que não se importa, no começo, pode até parecer difícil, muito difícil, você meio finge que não se importa, mas acaba se importando no final. Mas com o tempo, vai ficando cada vez mais fácil, e fingir que não se importa vai se tornando não se importar de verdade.
Com os xingamentos eu já aprendi totalmente a lidar “feio! Gordo! Burro! Cara de melão amassado! Jumento! Baleia azul! Idiota!”. Mamãe me disse uma vez que o que diziam de mim não se tornava realidade, podiam me falar mil vezes que eu era burro, mas eu não era burro, tirei até nota alta uma vez, ela falou. E o que as pessoas diziam de mim não muda quem eu sou. Eles podiam falar o que quiser que não ia mudar a realidade. Sabe o pior? Ela tinha razão, a verdade mesmo é que mamãe tinha razão uma porrada de vezes.  Aí, graças aos moleques que me batiam, e é claro, mamãe, eu aprendi uma lição que me serviu o resto da vida inteira. O que as outras pessoas pensam, ou falam de vim, é irrelevante, não ligo. Vi um velhinho falar uma vez num desenho assim “nada me atinge, virei rio, não importa quantas pedras joguem, a água não muda, se aparecem troncos, desvio por volta. Se o vento bate forte, a árvore gigante cai, mas o galho pequeno se entorta e volta como se nada tivesse acontecido”. Nada pode me atingir, sou invencível.
            PAFT!
            Menos um empurrão com toda força, isso aí não só pode como me atingiu sim, e atingiu legal. Bati de costas e com a cabeça na parede atrás de mim, meu lanche caiu no chão. Tocou o sinal pra hora do recreio e eu estava morrendo de fome. Mas esqueci que ainda precisava enfrentar o exército invencível do mal se eu quisesse comer hoje. Os olhos já enchiam de lágrimas. Mamãe falou que homens podiam chorar também, que não tinha problema. Mas acho que eu chorava demais.
            Um tio meu falou uma vez que a escola era a melhor época da sua vida, e eu imediatamente pensei na hora, “então ou tem algo de errado com a minha infância, ou com a sua adultez”. Imaginei, “não é possível, não tem como piorar”.
            A gente sempre pensa que não tem como piorar, por exemplo, agora, tomei um empurrãozão, bati a cabeça, meu lanche caiu no chão. Não tem como piorar, certo?