Nosso Castelo de Cartas

Nosso Castelo de Cartas

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Dois copos, um conto - O menino que não acreditou (Parte 2)


Morava no 3o andar de um grande prédio, enorme lá fora, mas aqui dentro o apartamento era pequenininho. Bem embaixo da janela tinha uma caixa de ar-condicionado feita de cimento que ficava pro lado de fora do meu quarto. Parecia um perfeito apoio, passei pela janela e subi lá. Olhei pra cima, estiquei os braços pro lado, que nem aquela estátua gigante lá do Rio que esqueci o nome agora. Fechei os olhos, senti a bria no rosto. Parecia um ótimo dia para voar.
 - MENINO! DESCE DAÍ AGORA!
Patrícia gritou.
Tomei um susto, virei de costas pra ver.
Mas já era tarde demais.
Nessa hora eu já estava no ar.
Erguido nos braços de Patrícia, que me tiraram do conforto de cima do ar-condicionado e da brisa lá fora. Me trazendo de volta pra realidade do meu quarto sem graça.
Eu expliquei pra ela que sabia voar, tinha aprendido. E ela me explicou uma história de que "sonho era diferente de realidade" e "voar era impossível" que eu achei completamente ridícula. Eu não acreditei em nada disso, era algo triste demais para ser acreditado. Até que ela me falou que mamãe ia me dar umas boas chineladas se eu tentasse voar de novo. Bom, aquilo sim era uma verdade incontestável. Com as chineladas de mamãe não se brinca, achei melhor deixar pra trás essa história de voar. No meu sonho era tão fácil, era só se jogar e errar o chão, mais nada. Mas, como já disse. Chineladas. Melhor não.
Hora de ir pra aula, toma banho, almoça, põe uniforme, amarra o tênis. Patrícia vai comigo, mas é pertinho, acho que já sou grande o suficiente pra ir sozinho, mas mamãe não deixa, melhor não. Ela se preocupa muito comigo, pena que está sempre tão ocupada.
Chego na escola, a primeira visão é sempre o exército maligno das forças do mal, ou, vulgos meninos grandes que te xingam e te batem sem motivo. Eu nunca vou entender o porquê, de verdade. Fico me perguntando se quando a gente fica adulto a gente descobre porque tem gente que gosta de xingar, bater, ou tratar os outros mal. Na real, acho que nunca vou entender isso mesmo.
Acho que eles ficam lá na frente pra fazer tipo um reconhecimento de terreno, analisando os mais fracos, ou quem eles vão mexer hoje. Olharam muito pra mim, altas chances de que hoje o escolhido seja eu, o negócio mesmo é rezar pra que não, é o melhor que posso fazer. Mamãe disse pra eu falar pra professora ou pra ela, não adiantou, papai disse pra eu fazer umas aulas de karatê, também não adiantou. A melhor estratégia quem descobriu fui eu mesmo, ficar na minha, fingir que nem existo, ser tão não importante que nem eles vão dar bola pra mim.
Se discutirem, eles tão certos e eu tô errado, se me xingarem, finjo que nem escuto. Pra que tentar lutar de volta? Ser forte pra se defender? Criar um escudo, tentar encarar aquilo da melhor forma possível? O negócio é fingir que não se importa, no começo, pode até parecer difícil, muito difícil, você meio finge que não se importa, mas acaba se importando no final. Mas com o tempo, vai ficando cada vez mais fácil, e fingir que não se importa vai se tornando não se importar de verdade.
Com os xingamentos eu já aprendi totalmente a lidar “feio! Gordo! Burro! Cara de melão amassado! Jumento! Baleia azul! Idiota!”. Mamãe me disse uma vez que o que diziam de mim não se tornava realidade, podiam me falar mil vezes que eu era burro, mas eu não era burro, tirei até nota alta uma vez, ela falou. E o que as pessoas diziam de mim não muda quem eu sou. Eles podiam falar o que quiser que não ia mudar a realidade. Sabe o pior? Ela tinha razão, a verdade mesmo é que mamãe tinha razão uma porrada de vezes.  Aí, graças aos moleques que me batiam, e é claro, mamãe, eu aprendi uma lição que me serviu o resto da vida inteira. O que as outras pessoas pensam, ou falam de vim, é irrelevante, não ligo. Vi um velhinho falar uma vez num desenho assim “nada me atinge, virei rio, não importa quantas pedras joguem, a água não muda, se aparecem troncos, desvio por volta. Se o vento bate forte, a árvore gigante cai, mas o galho pequeno se entorta e volta como se nada tivesse acontecido”. Nada pode me atingir, sou invencível.
            PAFT!
            Menos um empurrão com toda força, isso aí não só pode como me atingiu sim, e atingiu legal. Bati de costas e com a cabeça na parede atrás de mim, meu lanche caiu no chão. Tocou o sinal pra hora do recreio e eu estava morrendo de fome. Mas esqueci que ainda precisava enfrentar o exército invencível do mal se eu quisesse comer hoje. Os olhos já enchiam de lágrimas. Mamãe falou que homens podiam chorar também, que não tinha problema. Mas acho que eu chorava demais.
            Um tio meu falou uma vez que a escola era a melhor época da sua vida, e eu imediatamente pensei na hora, “então ou tem algo de errado com a minha infância, ou com a sua adultez”. Imaginei, “não é possível, não tem como piorar”.
            A gente sempre pensa que não tem como piorar, por exemplo, agora, tomei um empurrãozão, bati a cabeça, meu lanche caiu no chão. Não tem como piorar, certo?

terça-feira, 15 de março de 2016

Dois copos, um conto - O menino que não acreditou (Parte 1)

Eu tenho dificuldades em começar as coisas. Gosto de pensar num mundo em que os planos mais mirabolantes e perfeitos podem dar certo. Tentar é sempre perigoso demais. Gosto de imaginar e sonhar. O Cebolinha, das histórias em quadrinhos que eu ouvia quando menino, tinha sempre uma boa ideia. E eu não. Eu sempre parecia separado. Tudo meu era separado. Separado. Deslocado. Escrevia meus registros de caderno nas folhas erradas. Perdia os bilhetes que vinham da escola. Não anotava recados. Eu nem percebia, mas sabia voar. E como eu voava.
Na hora das explicações da professora, dragões saltavam pelas janelas e eu era o único defensor que podia expulsá-los. E tinha que ser somente com o olhar. E tinha que ser sem ninguém perceber. Era segredo, era secreto e eu era Bond! James... Bo... Até a hora que a professora, perfeita espiã russa, percebia e reclamava gritando comigo. O que você pensa que está fazendo? Esse garoto tem algum problema... Isso não é possível. E eu assistia aos dragões devorando toda a classe enquanto eu saía da sala.
O diretor era bem legal. Ele tinha um bigode engraçado e sempre sujo. Tinha sempre alguma mancha ou pedaço de algo nele. Eu me entretinha enquanto ele falava, cuspia e se sujava mais ainda. Era tão engraçado ver as pequenas gotas de saliva em sua barba que eu nem me chateava. Nunca levei um só bilhete dele até em casa. Ficavam pelo mundo, por aí. Eu sorria por dentro e fazia cara de desespero por fora. Deixava o diretor bigode gritar bem alto e pedia desculpas. Não por deixar toda minha turma morrer devorada e queimada por dragões, mas por ter a mente solta demais e deixar que qualquer brisa a levasse pra longe.
Brisa... Ela me levava pra longe... Mas não quero falar dela ainda. Isso é assunto pra depois.
A hora que o telefone tocava eu iniciava uma corrida contra mim mesmo. Se eu contasse três toques e não atendesse, algo terrível iria acontecer. Eu só não sabia o que era, mas sabia que era terrível. Eu derrubava as coisas no caminho e caía quase sempre, mas sempre dois toques. Nunca três. Às vezes dois e meio. Pelas minhas contas. Eu não gostava da voz de algumas pessoas. Os homens que perguntavam da minha mãe e as mulheres que procuravam pelo meu pai eram sempre mal atendidos e mesmo que eles estivessem ao meu lado, dizia que eles tinham saído. Eu vi na TV o que acontecia e não queria aquilo. Tomei uns três ou dez tapas por isso. Talvez mais.
Na hora de anotar o recado ou número ou o nome ou o recado mesmo, eu desenhava na folha e dizia hãram... Hãramm... Hummm... E o desenho ia sempre ficando mais legal conforme as pessoas continuavam falando e não desligavam. Eu desenhei um dragão uma vez e ele dizia à professora que era tudo culpa dela. Não deu tempo de desenhar mais nada.
Uma vez eu sonhei que sabia nadar. Eu nadava entre os peixes e tubarões e ia muito rápido. Acordei surpreso por descobrir que nós podíamos aprender as coisas sonhando. Passei o resto do mês aprendendo a voar. Eu deitava e ficava forçando o pensamento, imaginando a cena e tentava sonhar, mas o sonho não vinha. Outra vez, meio que sem querer, sonhei que voava, mas começava a cair depois de um tempo. Acordei e não levantei. Cobri o rosto com o lençol e continuei tentando sonhar que voava. Consegui! Finalmente! Aprendi a voar!

Não podia esperar! Assim que levantei, corri até a janela. Ia voar até a escola e todos veriam do que sou capaz. O diretor bigode ficaria muito surpreso. A professora ia pedir desculpas por me chamar de problema. A Brisa... Ah! A Brisa...

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Romances idiotas de 15 anos

Atenção! 

            Esse texto foi feito para ser lido enquanto você escuta


E depois troque pra essa


Chuva forte.
16 anos, curtos cabelos pretos, olhos pretos, andava de preto. Rebelde sem causa, revoltado por tudo, não queria fazer nada, odiava tudo na vida. Meio curioso.
Lucas estava desanimado com a vida. Ultimamente nada dava certo.
Aquela chuva foi o fim. As vezes tudo que precisamos pra desabar é uma gota d´água, e no caso de Lucas, foi isso mesmo, literalmente. Já não bastava tudo de ruim que havia acontecido nas últimas semanas, pra piorar, tinha essa chuva, estava voltando pra casa, e agora, Lucas não era só um cara puto e desanimado com tudo na vida. Ele era um cara puto e desanimado com tudo na vida e todo molhado.
Olhava fixamente pra frente, andando por aí tão rápido e revoltado que parecia estar chutando o nada.
VUSH.
É o som que faz o vento quando se caí de bem alto.           
SPLAFT.
É o som que se faz quando se atinge o chão molhado. Tipo SPLASH + PAFT.
POFT.
É o som que se faz quando se chuta alguma coisa.
- PORRA!
Foi o som que saiu da boca de Lucas.
Olhou pra baixo, andava tão feito doido que acabou chutando algo sem querer. Tomou um susto. Era um livro, ele correu pra pegar antes que se molhasse mais ainda na chuva.
Aparentemente não estava ali há muito tempo, só molhou um pouquinho.
Lucas entrou num café, sentou e começou a ler.
A primeira página dizia:

“In my life, oh, why do I give valuable time
To people who don't care if I live or die?”

Lucas leu uma página, leu duas, três. De repente, já estava ali há horas.    
Era um diário de uma garota. Sim, não era pra ele estar lendo as coisas dos outros assim, mas você sabe, curioso.
É engraçado, conhecer alguém tão bem, seus segredos mais estranhos, antes de literalmente, conhece-la de verdade.
Ele se absorveu de um jeito que até esqueceu que estava chateado. Aquele livro era incrivelmente envolvente, leu tudo de uma vez.  
No diário tinha um nome e um endereço.
Ele resolveu devolver.
Não era tão longe, pegou um ônibus, chegou lá.
Olhou pra porta.
E agora?
Que situação estranha.
Bateu.
Abriram.

BOOM.
            Slow motion.
De repente o mundo parou.
Uau, como alguém pode ser tão bonita, ele pensou.
Os longos cabelos castanhos dela escorregavam pelo ombro enquanto ele se perdia no seu sorriso, e nos seus olhos.
Ele ficou lá perdido, com cara de bobo por uns segundos, até que uma voz o arrastou de volta à realidade, quem sabe assim ele parava de ficar encarando ela, até porque já estava ficando estranho.

- Oi! Quem é você?
- Eeer, eu achei esse livro aqui na rua, aí tinha esse nome e endereço, você que é a Letícia?
- Sim! Mas como você pegou isso? Não estava na rua.
- Estava sim.
- Estava não, olha só, eu lembro até dele ter caído mesmo, mas se eu perdi foi aqui em casa, provavelmente embaixo da minha cama, olha aqui, vou te mostrar.

Entraram os dois no quarto. No caminho, Letícia abriu o livro nas últimas páginas.
Dizia:

Querido diário.

Hoje eu te perdi, mas um menino achou e resolveu trazer de volta pra minha casa.
Ele é bonitinho, e gosta de The Smiths também.
Será que vou ver ele de novo?

Nessa hora Letícia pensou:
“Que porra é essa”.

Na próxima página tinha escrito:

“To die by your side, it’s such a heavenly way to die
To die by your side. Well, the pleasure and the privilege is mine”

- Por que você escreveu essas coisas no meu diário?  Ela perguntou.
- Mas eu não escrevi nada. Foi a resposta dele.
- Como não, tem umas coisas aqui que não fui eu que escreveu. E não tô entendendo, ela disse. Eu tenho certeza que esse livro estava por aqui, pensei que tinha...
VUSH.
Vento forte.
PLOFT.
            - Ops.
- Pensei que ele tinha caído em baixo da cama, que nem agora.
Abaixou, olhou em baixo da cama, pegou um livro de volta.
- Então, você gosta de The Smiths?
- Sim.
           
E o resto é história.

Ah!

Anos depois.

- Fala a verdade! Foi você que escreveu aquilo na última página do diário. Ela perguntava vez ou outra.
- Você sabe que eu não sou mentiroso! Já falei que não, se eu tivesse escrito eu já teria dito!
- Então se não foi você, nem fui eu, quem escreveu?
- Sei lá, escreveu sozinho, acho que o livro era mágico. Ele falou sorrindo.
- Ahã! Tá bom! Ela falou sorrindo.
-  É sério!

Eles nem notaram, mas na última página do livro tinha escrito:
Esse livro é magico.

Mas de toda forma todos são.          

Agora sim.

Fim.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

The key to happiness

She smiled
And then
Time stopped
Nothing could move anymore
Just my hands
In her hair

Her smile
Shine upon me
Like stars in the sky
My fingers close to her eyes
Then to her mouth
Sweet Moscato lips

She pointed to a key and said
That is the key to happiness
The key was there
Golden, bright and shiny
But I looked at her and said
You are my key to happiness

I woke up by her side once
And I could tell she was trouble
Problem is
I like trouble

I looked at her eyes
Kissed her lips
Her smell is in my shirt
I feel right into the trap

Trouble is all over my head
And I cannot get it out
Truth is
I do not want to

Hey, trouble girl
Listen
I will whisper the words
In your ears
You are
My key to happiness

domingo, 27 de dezembro de 2015

Curtas histórias de John, o romântico incurável (Parte 1)

Os olhos.

Dava pra se perder nos olhos dela.
Eu olhava fixamente para eles e adentrava em seu olhar como se fosse outro mundo.
E na verdade era outro mundo mesmo.
Uma dimensão perdida onde o tempo passava de uma forma completamente diferente.
Às vezes eu olhava por segundos e passavam horas, às vezes eu olhava por horas e passavam segundos.
Dava pra me encontrar nos olhos dela.
Quando eu via o reflexo do meu rosto lá dentro eu era tão pequeno. Eu podia caber inteiro no seu mundo.
Eu me achava lá e parecia que naquele momento eu tinha todas as respostas pra tudo.
Ela era a resposta pra tudo.
Os olhos dela eram como o mar. Como ondas que te atraem para dentro. Você vai se aproximando aos pouquinhos e quando percebe, tarde demais, já está perdido.
Perdido no meio da imensidão do mar, assim como eu me perdia nos olhos dela. Olhos de maresia.
Me perguntavam o que eu via naqueles olhos, mas a verdade mesmo, era que nenhuma outra coisa eu via, só existiam aqueles olhos nos meus pensamentos.
Adentrei nos olhos dela e me perdi. Como todo romântico incurável, estava apaixonado e agora já era tarde demais, e foi tudo culpa daqueles olhos.
O problema de ser romântico incurável é que a gente gosta. Todo poeta que se perde em palavras de amor adora se perder.
Então é só se deixar cair.
Caí de costas num abismo.
Tudo por causa dos olhos dela.
E ainda caí sorrindo.