Nosso Castelo de Cartas

Nosso Castelo de Cartas

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Reescrevendo (Jan/2011) - Chain Break

Chain Break (Parte 1)

Abra os olhos.
Levantou da cama num pulo já com o lençol na mão, vai o dobrando e abrindo a gaveta do guarda-roupa com o pé, enquanto pensa em que roupa vestir. Tempo é dinheiro. Cinco minutos e estava na sala, tomando café com uma mão e calçando o sapato com a outra.
Ninguém lhe dá bom dia, ele não mora só, mas parece que mora, afinal os horários não se batem e é raro os moradores daquela casa se encontrarem. Desce as escadas correndo, são 7h44 agora, conseguiu se arrumar e sair de casa em 14 minutos, foi um bom tempo já que seu recorde pessoal eram 11 minutos.
Bom dia! Sabe aquele bom dia que somos obrigados a dar? Pois é esse bom dia (que ele deu à recepcionista) foi um deles. Sua sala era uma das últimas do corredor passou por todas rápido, até melhor que seja rápido, assim ele não precisa falar com ninguém.
Chato? Eu não diria chato. Eu diria que a vida dele era chata. Que a sociedade era chata pra cacete. Aquela coisa de acordar todo dia no mesmo horário, pegar o mesmo ônibus, ir pro mesmo lugar, ver as mesmas pessoas. Putz! Se você para pra pensar, isso pode se tornar chato pra porra! Sabe aquele emprego de mexer nos papéis e no computador? Aí você inverte do computador pros papéis, pegar um cafezinho pro chefe (e aquela cara dele de “chegou atrasado de novo?” tsc tsc) ou aquela sua vontade de matá-lo de vez em quando. O ser humano é assim mesmo. É fácil estabelecer padrões pra sua espécie. O problema é justamente que tem sempre um ou outro fora desses padrões. John era desses que teimam em ser diferente. Ele tinha uma regra...
Ele chamava essa regra de “Chain Break”. A cada hora que se passava, toda vez que o ponteiro acertava horas exatas às 8h, às 9h, às 23h. Ele tinha uma chance de quebrar a rotina. Uma vez por dia quando o relógio acertasse uma hora, ele tinha que fazer algo pra quebrá-la. Por quê? Porque sim, oras. Ele teve essa ideia um dia, gostou e resolveu aplicá-la. E deu certo, os “chain breaks” eram geralmente os melhores momentos do seu dia.
Eu não estou falando de nada excepcional, ações que mudassem sua vida ou dessem pra fazer um filme. Eram coisas simples. Às vezes, ele só deitava no chão (não importando onde estivesse). Às vezes, corria tentava pular a primeira coisa alta que via na frente (esse lhe rendeu um tombo feio uma vez). Teve um dia que ele resolveu fazer uma receita pegando ingredientes com os olhos fechados (não deu certo também). Outro, ele fez seu próprio jogo de tabuleiro (apesar de ninguém nunca ter jogado). Uma vez escreveu uma poesia. Teve uma hora que pegou uma flor e entregou pra primeira garota bonita que viu, ela sorriu, ele sorriu também e foi embora (podia ter ao menos perguntando o nome dela...).
Não importava realmente o que John ia fazer, valia mesmo era o “fazer”. Qualquer coisa estranha, inesperada, imprevisível, a primeira coisa que lhe viesse na cabeça. E seja lá o que ele estivesse fazendo sempre durantes os “chain breaks” John estava sorrindo, rindo, sei lá. Era legal e ele se divertia muito com isso.
A coisa já estava ficando até mais elaborada. Tinha o “final break” que ocorria às 23h59 e era a última chance de quebrar a rotina naquele dia. Ele ficava olhando pro relógio e dizendo... “O dia ainda não acabou!” Enquanto eram 23h58... E um minuto depois ele fazia qualquer coisa.
O primeiro “final break” foi um dia totalmente perdido, chato pra cacete, onde teve uma reunião chata no trabalho, um café derramado na blusa, um ônibus perdido e uma série de acontecimentos reunidos que o impediram de conseguir um “chain break”. Naquele dia quando ele olhou pro relógio e viu que já tinha passado das 23h, aliás, já eram 23h59 e que ele teria passado um dia inteiro sem um “chain break” ele disse: “não!” Saiu do seu apartamento, desceu as escadas e foi correndo no meio da rua às 23h59 com a roupa do trabalho... Aproximadamente 4 minutos depois ou tempo que o grande físico sedentário de John o levou pra cair sentado no chão. Ele deitou, olhou pro céu e... Lembrou-se que era perigoso onde morava e era melhor ele sair correndo de volta pra casa. Foi o que ele fez... Não me pergunte por que, mas ele voltou correndo e sorrindo. Meio coisa de louco mesmo.
Tinha outra regra também. Sabe quando ele entregou a flor pra garota no meio da rua? Pois é, ele teve a ideia, pegou a flor, olhou pra um lado e outro, viu uma garota bonita foi em direção a ela e... TU DUM... TU DUM... Seu coração bateu forte e rápido demais. Ele começou a pensar... E se ela achar ruim? E se me der uma tapa? Gritar comigo? E se o namorado dela estiver por aqui? E se o namorado dela for um cara grande e forte? E se? OH MEU DEUS. E se... E se... Ele parou um segundo, a garota passou por ele. Ele tinha ficado com muito medo pra entregar a flor, ele tinha ficado com muito medo pra conseguir aquele chain break.
Foi aí que ele inventou mais essa regra “não existe medo durante um chain break” Virou, tocou o ombro da garota olhou pra ela sorriu e disse “pra você”, ela sorriu, ele virou as costas e foi embora.
Pois é, já tem o “chain break” o “final break” e o “não existe medo durante um chain break” com essa já são três regras. John nunca gostou de coisas complicadas, a coisa começou com uma regra e agora já eram três! Tá bom, né?
Mas hoje John estava realmente a fim de tentar algo mais novo e mais difícil ainda. Ele deu o nome de “hard break” e seria a última regra. A ideia era simples. O “hard break” consistia em convencer alguém a fazer um “chain break” junto com ele. Por isso o nome “hard”, afinal fazer uma loucura sozinho é tranquilo, mas convencer alguém a fazer junto... É “hard”.
Hoje ele ia tentar o primeiro “hard break”, aliás, ele ia tentar um “final hard break” às 23h59. Ele ia pegar o celular, ligar pra um contato aleatório da agenda e convencer seja lá quem fosse a fazer qualquer maluquice junto com ele. Considerando as habilidades de John de convencer as pessoas, ele julgava que isso ia ser bem difícil. Talvez... Se ele tentasse ligar mais cedo, ou... Ligasse pro ser melhor amigo... Podia ser mais fácil. Mais aí não teria tanta graça assim. O divertido dos “chain breaks” é exatamente a parte em que o destino se mete. Então teria que ser às 23h59 e teria que ser uma pessoa aleatória.
Ele passou o dia pensando nisso. 23h58... 23h59. Era agora. Já estava com o celular na mão, colocou na agenda, fechou os olhos e escolheu um número.
Discando... Era o número de uma garota. Foi nessa hora que ele pensou... Ah... Acho que a probabilidade dela simplesmente não atender e assim irem por água abaixo meus grandes planos é imensa. Tu... Tu...Tu... (o celular) TU DUM... TU DUM... TU DUM... (o coração de John)...
- Alô?

Chain Break (Parte 2)

- Alô? (Ele)
- Eu parei de ir atrás de você. Percebi que era o que você queria. Certo? Você poderia ao menos ter me ligado... (Ela)
- Sim, eu queria. Mas o destino mandou que eu me afastasse.
- O destino disse algo sobre eu sentada sozinha ouvindo mensagens antigas só pra ouvir sua voz? Algo assim? Ou... Sobre eu procurar rostos de estranhos no metrô na esperança de cruzar com seu sorriso? Mas nunca achei.
- Ele não me disse, isso eu descobri sozinho.
- Certo. Então por que resolveu atender dessa vez?
- Já é hora de dar um ponto final nisso, não ia dar certo mesmo. Todas essas dificuldades... Você sabe...
- Então amar não é suficiente?
 - Não.
Tu... Tu...Tu...
Bom, ao menos foi a última vez que ela ligou pra ele.
Não era a primeira vez que ela chorava por causa daquele cara. Na verdade, das duas últimas vezes quando chorou prometeu a si mesma que seria a última vez.
Dessa vez nem se deu ao trabalho de prometer. Mas foi a última vez. Tomar um banho pra esfriar a cabeça.
Chuá...
“Em algum lugar do tempo... Nós ainda estamos juntos” (música).
Fechou o chuveiro.
- Maldito toque de celular... Quer saber? Foda-se. Vai tocar até a morte. Abriu o chuveiro.
 - Mana! Seu celular tá tocando!
 Aff...  Tô no banho! Vou atender não! Desliga aí!

Hehehe... (curta e silenciosa risada maligna ao fundo)

Chain Break (Parte 3)

- Alô? (garota de 12 anos do outro lado da linha)
- Oi! É o John. Tudo bem?
- Tudo. E com você?
- Tudo! Desculpe ter ligado tão tarde...
- Sem problema, o que é?
- Eer... Bom, eu queria encontrar você hoje. Ah, sei lá bater um papo.
(Encontrar minha irmã hoje? É meia-noite! Esse cara é o quê? doido?)
- (Silêncio...)
- Eer... Oi?
(Sorriso macabro ao fundo)
 - Oi! Tudo bem! Onde?
- Oh! Eer... Na... No... No supermercado!
 (É doido mesmo)
 - Aquele aqui perto?
 - Isso!
- Tá certo então, te vejo lá.
- Certo!
- Tchau.
- Tchau...
- Tu... Tu... Tu...
Como se minha irmã fosse sair à meia-noite com esse doido. Otário! Vai esperar a noite toda.
E do outro lado da linha, John.
- Não estou acreditando que isso deu certo mesmo. Foi fácil demais, pensei que ia ter que tentar uns quatro contatos pelo menos... Bom, funcionou é o que importa. Agora, pro supermercado perto da casa dela... Aonde é que ela morava mesmo?
...
Lembrei!

Chain Break (Parte 4)

Ela saiu do banheiro, trocou de roupa e resolveu sair de casa. Mas pra onde mesmo? O negócio era ir embora, caminhar pra qualquer lugar... Mas não posso ficar andando por aí tarde da noite, acho que a única coisa aberta uma hora dessas é um supermercado 24h aqui do lado. Que seja então.
 - Oi!
Supermercado 24h tarde da noite, lugar estranho pra encontrar alguém.
- Oi! Fazendo compras essa hora?
- Pois é... Longa história, só um hábito estranho. Pra quebrar a rotina sabe?
 - Pô, legal.
(Sério, achei legal mesmo. “Hábito estranho” São palavras que rendem boas gargalhadas geralmente.)
- Só uma ou duas coisas que tenho que pegar. Vamos lá?
(Ele tá me convidando pra acompanhar ele nas comprar noturnas? Bom isso foi meio estranho, mas eu tô aqui no supermercado mesmo afinal. E porque não? Tô fazendo nada mesmo.)
- Beleza. Em que seção é?
- Sei lá... Deixa eu ver...
(Ok, pessoas espertas vem pra um supermercado com uma lista ou algo assim. Mas beleza...)
- Bebidas! Estou com sede.
(Isso é que é decidir na hora.)
- Qual bebida eu levo?
- Tá perguntando pra mim? Eu não sei, você que veio fazer as compras ué.
- Escolhe uma aí.
- Pega um vinho então.
- Beleza.
- Precisa do que mais?
- Deixa eu ver... Eu tenho um vinho... Agora só preciso de um queijo!
- Queijo é bom.
Queijo, depois caixa, caminho para a saída, passamos pelas mesas e...
- Aí, porque a gente não senta e bebe?
- Aqui, agora?
 - Sim, agora. Por que não?
(Por que não né? Tô fazendo nada mesmo.)
 - Beleza. Ele foi pegar uns copos, voltou rápido. Colocou vinho neles, olhou pra mim e disse já sorrindo:
- Então... Você vem sempre aqui?
Eu quase ri.
- Nesse supermercado? Claro! Principalmente depois da meia-noite.
Ele sorriu.
Eu percebi que isso estava bem melhor do que o esperado. Não estava dando gargalhas por aí, mas melhor no supermercado à meia-noite tomando vinho com um colega que mal conhecia, do que na minha cama sozinha perdida em péssimos pensamentos. Fiz bem em sair.
A garrafa de vinho foi embora rápido. Sabe essas pessoas que você mal conhece, mas uma vez acabam conversando e você nunca imaginou o quanto aquela pessoa pudesse ser interessante e divertida? Eu já estava até rindo. Eu já tinha até me esquecido... Do que mesmo?

Mas, como tudo acaba, nos despedimos. Ele estava indo embora e alguns segundos antes de partir, olhou nos meus olhos uma última vez aquela noite. Sabe aquele tipo de pessoa que fala muito com os olhos? Pois é. Nem vou contar a vocês o que li nos olhos dele. Eu só sorri. Tempos depois ele me disse que passou a noite pensando naquele sorriso. E pensar que eu saí de casa sem a mínima esperança de sorrir essa noite. Esse foi nosso primeiro encontro. O resto são outras histórias. Use a imaginação, mas dou uma dica. Final feliz. 

sábado, 20 de agosto de 2016

Reescrevendo (Ago/2011) - O Garoto Ancião

Dezessete anos, longos cabelos pretos e olhos castanhos.
Jovem empolgado, aventureiro, queria mudar o mundo, tinha vontade de fazer tudo. Nenhuma montanha era alta demais que ele não arriscasse escalar, nenhuma queda era grande demais que ele não conseguisse se levantar.
Curioso. Gabriel era muito curioso.
Gostava de música, jogos, filmes, esportes, aventuras e de ler.
Um dia, Gabriel encontrou um livro numa caixa velha em sua casa, naquele cômodo que tem em todas as casas, aquele lugar onde há um monte de coisa encaixotada que ninguém usa, mas também não joga fora.
Na primeira página do livro, dizia: "Este livro é mágico".
De certa forma, todos são.
E na segunda página, dizia: "Primeiro capítulo: Hoje".
O protagonista do livro era um jovem de dezessete anos, longos cabelos pretos e olhos castanhos. Jovem empolgado, aventureiro, queria mudar o mundo, tinha vontade de fazer tudo. Nenhuma montanha era alta demais que ele não arriscasse escalar, nenhuma queda era grande demais que ele não conseguisse se levantar. Curioso.
O livro era uma biografia muito envolvente. Gabriel, sem parar, leu toda a vida do protagonista, que foi contada desde os seus dezessete anos até os seus cinquenta anos.
A última linha dizia: “Na famosa crise de meia idade, eis que ele fechou o livro, pois tinha a grande impressão de que já não havia mais nada para escrever”.
Gabriel achou o final idiota, fechou o livro e foi dormir.
Entretanto, ele nunca mais acordou.
Porque quem acordou naquela manhã não foi Gabriel, mas um cara de cinquenta anos.
Gabriel tinha envelhecido trinta e três anos em uma noite. Ele correu pro espelho e viu o quanto tinha mudado.
Dezessete anos, longos cabelos pretos e olhos castanhos. Nada de diferente.
Mentira.
Tudo era diferente.
Gabriel meio que levantou cambaleando e foi tomar café. Sua mãe lhe deu “bom dia” como se nada tivesse acontecido. Mas ele nem deu “bom dia” a ela, porque ele se sentia como se já tivesse dado um milhão de “bom dia” e mais um não faria diferença. Era a coisa mais estranha que já havia sentido, mas era tipo estar enjoado de dar “bom dia”.
Mas ele gostava de dar “bom dia”.
O café da manhã tinha leite com chocolate e pão com queijo. Ele adorava aquele café da manhã.
Mas hoje ele havia acordado como se já tivesse comido aquele café da manhã um milhão de vezes. Mal tocou na comida. Estava enjoado de pão com queijo.
E ao longo do dia ele percebeu que tudo estava igual. Tudo era repetido, era um filme já visto e ele tinha certeza absoluta de que já tinha feito tudo o que havia para fazer.
Nesses trinta e três anos, ele viu todos os filmes que queria ver, leu todos os livros que queria ler, escutou todas as músicas que queria escutar, conheceu todas as pessoas que queria conhecer, beijou todas as garotas que queria beijar. E, mesmo que ele visse outros filmes, escutasse outras músicas ou conhecesse outras pessoas, nada parecia se comparar com os últimos trinta e três anos que ele já havia vivido.
Era tudo sem graça.
"Era como se não houvesse mais nada pra escrever" – ele pensou.
E lembrou-se do livro, correu em casa e o pegou.
Na primeira página, dizia: "Este livro é mágico".
“Não pode ser...” – ele pensou.
Na segunda página, havia as seguintes palavras:
"Hoje acordei meio estranho, meio enjoado. Mas nem prestei atenção nisso, porque um grande amigo que eu não via há muito tempo me ligou, dizendo que estava na cidade”.
Tu ru ru ru, tu ru ru ru, tu ru ru ru ruuuu.
Era o celular de Gabriel.
- Alô?
- Alô. Quem é?
- Sou eu, cara! Quanto tempo! Não lembra mais de mim?
... (silêncio)
- Estou de passagem por aqui! Vamos nos encontrar hoje? Pode ser?
- Claro.
- Certo! Passo na sua casa mais tarde, então!
- Ok.
... (silêncio)
Eu não sei se o livro era mágico mesmo.
Mas Gabriel sabia, tinha certeza de que o livro era mágico. De que ele havia vivido trinta e três anos e agora tinha cinquenta, estava preso no corpo de um moleque de dezessete e não via mais graça na vida.
Ele saiu para dar uma volta, levou o livro. Gabriel morava numa metrópole. Ele pegou um elevador num dos prédios mais altos da cidade.
Foi para um lugar onde se podia acessar a cobertura do edifício (não era exatamente permitido, mas ele dava um jeitinho). Ele adorava ver o pôr-do-sol daquele lugar.
Gabriel deitou na cobertura do prédio e passou horas pensando na vida, no universo e em tudo mais e em qual era o sentido daquilo tudo.
"Era como se não houvesse mais nada pra escrever".
Realmente não havia mais nada? Tudo era tão absurdamente sem graça assim?
Ele só conseguia pensar que era.
Só faltava um fim para essa história.
Começou a chover.
Ele pegou o livro e foi pra beira do prédio. Olhou lá para baixo por uns minutos.
Carros, confusas cabeças: a correria das capitais.
Olhou pro livro, olhou para baixo, pro livro, para baixo.
Chuva forte.
Já era hora do fim.
Abriu o livro...
Dezessete anos, longos cabelos pretos e olhos castanhos. Jovem empolgado, aventureiro, queria mudar o mundo, tinha vontade de fazer tudo. Nenhuma montanha era alta demais que ele não arriscasse escalar, nenhuma queda era grande demais que ele não conseguisse se levantar. Curioso.
...
VUSH
É o som que faz o vento quando se caí de bem alto.
SPLAFT
É o som que se faz quando se atinge o chão molhado.
Tipo SPLASH + PAFT.
Quase caiu na cabeça de uma pessoa. Essa pessoa aleatória que não tinha nada a ver com a história tomou um puta susto.
Ele pulou.
Mas não para fora do prédio, pulou pro outro lado, de volta para dentro do edifício.
Agora, de costas pra beira do prédio, ele notou que começava o pôr-do-sol.
E assim que começou a admirá-lo, sentiu-se como se já houvesse visto o pôr-do-sol um milhão de vezes.
Mas não dá para enjoar do pôr-do-sol.
Deu um sorriso.
Ninguém quis pegar o livro que caiu lá embaixo, caiu na chuva mesmo.
Molhou, estragou.
Ainda bem. Acho que era um livro perigoso.


domingo, 14 de agosto de 2016

Crônicas de 2178 - Capítulo 3 (Parte 2/2)

                - Então é isso? Perguntei a Jen.
                - Sim. Então, quer dizer que você não vai morrer aqui e agora?
                - Não. Respondi.
                - E como você pode ter tanta certeza disso? – Jen me perguntou.
                - Você lembra quando visitamos o oráculo?
                - Sim.
                - Ele me contou como eu iria morrer. E não é assim.
                - E você acredita assim, tão cegamente nas palavras do oráculo?
                - Na verdade não. Mas sobre hoje, eu sei que ela está certa.
                - Que inveja de você. Ter toda essa certeza de que vai sair dessa vivo.
                - E você, Jen? Acha que hoje é o seu dia?
                - Quer saber mesmo?
                - Sim.
                - Alguma coisa, lá no fundo, me diz que sim.
                - Você está errada.
                - Acho que é a primeira vez que você me diz isso.
                - Bom, é difícil contra-argumentar fatos, a verdade é que na grande maioria das vezes você está certa mesmo. Mas hoje não, hoje você está errada.
                - E como você tem tanta certeza disso?
                - É simples, veja só, eu já expliquei pra você que eu não vou morrer aqui e agora, certo?
                - Certo.
                - Então, se eles entrarem com o objetivo de nos matar, eles vão matar nós dois. Se eles entrarem com o objetivo de nos capturar, eles vão capturar nós dois. Se eles entrarem e nós dois reagirmos, iremos morrer os dois, se não reagirmos, seja lá qual for o nosso destino, será o mesmo destino para os dois. Não há nenhum cenário possível no qual apenas você morra e eu continue vivo, você é esperta, e sabe disso. Então, se eu não vou morrer aqui hoje, você também não vai.
                - Sabe, Eks, hoje. – Ela sorriu. – Só hoje. Eu queria que você estivesse certo.
                - Estou sim, você vai ver.
                - Lente-scanner, ativar detecção de sala
                Resultado: um objeto encontrado.
                - Olha só Jen, tem alguma coisa aqui, talvez nós possamos usar isto e dar um jeito de sair daqui.
                Jen sorriu.
                - Eu já vi, vai lá olhar o que é. Você realmente achava que eu não tinha pensado nisso antes, Eks?
                Fui lá, o “objeto” encontrado que poderia nos ajudar a sair da sala, era um antigo xpod geração 21xx, famosos pela sua incrível durabilidade. É, ela já tinha feito a análise da sala sequer antes que eu percebesse, óbvio, Jen estava sempre um passo à frente.
                - Olha só! Isso vai salvar a nossa vida. Eu disse.
                - É mesmo, como?
- Não sei, mas vai salvar a nossa vida, você vai ver. Jen, não há mesmo nada que possamos fazer?
- Eu já analisei todas as situações possíveis, Eks, não, não há nada que possamos fazer afora esperar e rezar.
- Bom, disse um velho amigo meu uma vez, se um problema não tem solução, solucionado está.
Eu liguei o xpod, que ainda estava funcionando, eu diria que, por incrível que pareça ainda estava funcionando, mas as propagandas sobre a lendária durabilidade dele eram tão famosas, que nem me espantei com o fato de ele ainda funcionar perfeitamente. Mandei tocar a primeira música, fui na direção de Jen, coloquei a mão na cintura dela. 
                - O que você está fazendo? Ela perguntou.
                - Ora, se não tem nada que possamos fazer. A senhorita me daria a honra desta dança?
                Jen riu bastante.
                Dançamos.
                Por alguns pouquíssimos minutos, que pareceram passar tão incrivelmente rápido e simultaneamente, pararem o tempo por uma ínfima eternidade... não havia guerra, não haviam soldados, não haviam missões, nem problemas. Não havia nada, só eu, Jen, e a música.
                Tudo era perfeito. Por alguns segundos, ela sorriu, eu sorri, e nada mais importava, só nós dois. O mundo era aquela sala e aquele momento. Eu acho que, se eu pudesse escolher um minuto da minha vida no qual eu tivesse que passar revivendo ele para sempre, seria aquele momento.
                Eu levantava o braço, segurava na mão dela, ela girava. Dançávamos para um lado e para o outro, ela sorria. Eu trazia ela pra perto de mim, segurava ela pela cintura. Olhava nos olhos dela e me perdia na infinidade deles. Valsando perfeitamente, como profissionais.
                Mentira.
                Na verdade, estávamos incrivelmente desengonçados, tipo aquele casal bêbado de fim de festa, no cantinho, que nem sabe o que está fazendo.
                Mas éramos felizes.
                Por um segundo em meio a toda aquela guerra e confusão, nós fomos felizes. E é isso que conta. Apesar de todos os horrores que vivenciamos todos os dias. Ás vezes, por um segundo, dá pra ser feliz. A vida é exatamente isso, breves intervalos comerciais de felicidade, em meio a um turbilhão de atrocidades que te atropela todos os dias. Mas esses breves intervalos valem a pena.    
                Eu olhava nos olhos de Jen e queria muito dizer a ela o que eu pensava, como eu me sentia. Mas, como sempre, me faltou coragem. Eu podia me jogar na frente de um trem em movimento sem medo, mas contar a verdade a Jen, ia requerer mais coragem do que isso.
                O problema é quando a realidade te acerta na cara. Aí você lembra que aqueles breves segundos de felicidade, parecem uma mentira, em meio a todo o caos que te rodeia.
                BOOM.
                Aí a realidade explodiu na minha cara. Bem literalmente mesmo.
                Estilhaços da parede voaram pra todos os lados, mas à parte um corte leve ou outro, estávamos bem, pelo menos por enquanto.   
                Um por enquanto que não durou muito, não mesmo.
                Adentraram a sala, em segundos estávamos cercados, doze soldados com fuzis apontados em nossa direção, eu e Jen no meio. E agora? Seria essa mesmo a nossa última missão?
                O líder do esquadrão deu um passo à frente e ativou seu comunicador.
                - Comandante, os encontramos. Sim, um homem e uma mulher como previsto. Afirmativo. Entendido. Considere feito.
                Ele virou o rosto para o primeiro soldado a sua direita.
                - Precisamos do homem vivo, apaguem ele para levarmos, não quero nenhum tipo de surpresas no caminho.
                - Entendido. E ela?
                - Só precisamos dele.
                - Entendido.
                BANG
                Ouvi um tiro.
                Tudo ficou escuro.

                Acabou.

sábado, 30 de julho de 2016

Crônicas de 2178 - Capítulo 3 (Parte 1/2)


Missão: infiltrar-se em base inimiga, conseguir informações sobre a nova arma de guerra CH2817B, o canhão z.

Nível de dificuldade: alta. Base altamente fortificada.

Estratégia da operação: utilizar os antigos túneis de acesso da cidade subterrânea para entrar e sair da base sem ser detectado.

Habilidades necessárias: alta experiência em missões de infiltração. Alta capacidade de raciocínio e manter a calma em situações extremas.

Possibilidade de sucesso: baixa. Apenas voluntários.

Possibilidade de resgate em caso de falha: baixa.

Voluntários:2

Perfis:

Codinome: Ekz
Sexo: masculino
Altura: 1,84 cm
Peso: 79 kg
Descrição: Cabelos pretos, corte curto. Olhos castanhos. Barba. Latino. Característica cicatriz de corte no lado esquerdo do rosto.

Codinome: Jen
Sexo: feminino
Altura: 1,63
Peso: 61 kg
Descrição: Cabelos loiros, longos. Olhos verdes. Branca. Tatuagem de rosas no ombro esquerdo.

-Arf... Arf

Corríamos por um corredor estreito, sem iluminação, paredes vermelho-escuro antigas de cimento batido. Eu na frente, Jen atrás.

Uniforme básico para missões de infiltração em ambientes escuros, calça preta, blusa preta, botas. No cinto do lado direito, uma pistola carregada, do lado, um cartucho de munição extra. Embaixo na perna esquerda, uma faca. No cinto atrás, dispositivo de escaladas curtas V83DG, usado em conexão com as luvas militares JA3B7, encaixe a ponta em seta da corda de metal na luva, atire, e o dispositivo te puxa. E o mais importante de tudo. Lente-scanner modelo 2182b, tecnologia de ponta, ativada por comando de voz. Aliás, se a visão noturna não estivesse ativada correr ali seria um desafio, pedras e detritos das antigas construções no chão não faltavam.

Mas todo o equipamento para missões de infiltração foi completamente irrelevante.
Não foi uma missão de infiltração.
Alguém dedurou a gente.
Não é a primeira vez que isso acontece, há um espião ou mais de um na rebelião que já tem entregado nossos planos para os Androids há algum tempo.

Podia ser qualquer um. Bom, qualquer um menos eu. Ou Jen. Ou o comandante Ezo.
Tá, eu confio demais nas pessoas, é verdade, é um defeito meu.
Se você ainda não entendeu, esse sou eu, Eks.
E sabe onde estamos agora?
A gente tá na merda.

                Quando chegamos na sala de controle, há apenas alguns minutos, assim que iniciamos o programa para tentar acessas os computadores e conseguir as informações sobre o canhão z, o alarme foi disparado. O sistema fechou. A sala foi trancada automaticamente. Ouvimos a movimentação, eles estariam lá antes que conseguíssemos sequer pensar num plano B. A minha sorte foi que Jen já tinha um plano B, ela apontou para o teto da sala, uma das saídas de ventilação, colocou o cabo V8 na luva, atirou, encaixou a ponta do cabo na grade, puxou, ela caiu, tínhamos uma saída. Não foi a primeira vez que Jen tirou a gente de uma enrascada, não sei onde eu estaria sem ela. Entramos nos túneis de ventilação, uma das saídas dava nos antigos túneis da cidade abandonada, e agora estávamos ali, fugindo como ratos, correndo o mais rápido possível. Status da missão: fracasso absoluto. Não sei como isso poderia piorar.
                BOOM
                Paramos. O que aconteceu? Uma explosão. Foi pouco atrás da gente, afora umas pequenas pedras insignificantes, não fomos atingidos.
                Chequei rapidamente o caminho por onde viemos.  
                - Completamente obstruído, a sorte é que não queríamos voltar mesmo.
                Na verdade, aquilo até parecia agir em nosso favor, agora nossos perseguidores iam levar mais tempo para nos alcançar.
                Bom demais, que sorte.
                O problema é que eu não acredito em sorte. Tinha alguma coisa errada ali.
                Acho que Jen teve a mesma impressão.
                - Bom demais pra ser verdade né? Ela falou
                - Exatamente o que eu pensei. Respondi.
                Caminhamos rapidamente até o fim do corredor, que já estava próximo, dava em uma pequena sala.
                Sem saída.
                Presos como rato numa ratoeira.
                Agora tudo fazia sentido.
                Aquela explosão não tinha ajudado a gente em porra nenhuma.
                Eles sabiam onde estávamos, e queriam prender a gente ali.
                Jen já tinha analisado toda a situação.
                - Jen para central. Conectar Eks.
                Lente-scanner, meu caro. Em segundos o comandante apareceu em uma imagem à frente dos nossos olhos.
                - Central, reporte. Disse Ezo.  
- Comandante, a missão foi um fracasso. Eles sabiam que estávamos vindo, provavelmente foi o espião. Estamos encurralados em uma sala sem saída nos corredores subterrâneos da cidade antiga. Qual a possibilidade de enviar uma equipe de extração? Consegue determinar a nossa posição?
                - Trabalhando nisso.
                - Eks, ative o sensor de calor, veja se consegue determinar a posição dos inimigos.
                Finalmente me senti útil.
                - Ativar visão de calor.
                Pra cima, nada, pra baixo, nada.
                Na direção do corredor.
                Uma equipe de oito pessoas, trabalhando em conjunto para remover os escombros e avançar em nossa direção.
                A direita nada, a esquerda....
                Uma outra equipe de doze pessoas, duas delas trabalhando em plantar explosivos na parede em uma outra sala vizinha a nossa.
                - A esquerda, vão explodir a parede e entrar aqui, provavelmente em alguns minutos.
Doze pessoas. Uma outra equipe de oito está trabalhando em retirar os escombros, mas eu acredito que a dos explosivos chegará primeiro. Expliquei a situação.
                - Comandante? Jen perguntou.
                A voz dela foi tão baixa, num tom diminutivo do início ao fim da palavra. Deu pra sentir a esperança abandonando seu corpo a medida que as letras iam se juntando.
                - Já temos sua posição, o mais rápido que conseguimos mandar uma equipe aí é em algumas horas.
                Silêncio...
                - Então não mande. Disse Jen.
                O quê? Eu pensei. Você está louca? Assim vamos morrer. Foi o que eu pensei.
                - Comandante Ezo, temos 20 pessoas se aproximando. Uma equipe de doze montando explosivos na sala vizinha para nos encontrar e mais oito devem chegar depois vindo de outra direção. Eu sei e você também sabe que por mais que você mande uma equipe, eles não chegarão aqui a tempo. E ainda que cheguem, nós não temos como enviar gente suficiente para combater vinte pessoas aqui na cidade subterrânea agora.
                Silêncio...
                O pior é que ela estava certa.
                - Entendido. Disse o comandante.
                - Foi uma honra senhor.
                - A honra foi toda minha, soldada.
                - Ekz... O comandante falou meu nome, esperando minhas últimas palavras...
                Nessa hora, passam mil coisas na cabeça da gente. O que pode acontecer? Vou mesmo morrer aqui e agora? Quais são as suas últimas palavras? O que você vai deixar registrado para a prosperidade? Não há mesmo mais esperança?
                A verdade é que eu sempre fui um cara muito em dúvida, sobre tudo na vida. Mas naquela hora, naqueles poucos segundos, eu nunca tive tanta certeza de uma coisa.
                - Eu não vou morrer aqui, senhor.
                - São belas últimas palavras, Eks. Eu não esperava nada diferente de você. Eu vou desligar a conexão agora, soldados. O único caminho para a paz é a luta.
                - O único caminho para a paz é a luta. Respondemos.

                Conexão encerrada. 

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Reescrevendo (Out/2009) - O Retrato da Poesia

A poesia é livre,
Quebra os ventos num bater de asas
De um passarinho azul

A poesia é pergunta
É resposta
É angústia, desabafo.

É tentar por imagens,
Em palavras.

É tentar tornar palavras,
Imagens.

É a busca por inconstância.
É pesar a razão
E a emoção.

É encontrar um equilíbrio
Entre as ondas e a lua,
Entre a prosa e o verso.
Entre o que se sente
E o que não se sente

É dizer 
Eu te amo
Com sinceridade

É abraçar sem ver
Sentir sem tocar
É pensar
No que falar

É se esforçar
Pra descrever
O que não dá
Pra escrever

A poesia é livre
Como um peixe no mar

É sorriso, é olhar.
É estar.

A poesia corre sem rumo
Na beira da praia

O seu destino é incerto
E ninguém sabe de onde partiu
Mas o que importa de verdade
É seu passar
É lembrar

O retrato da poesia
É céu.
Sem explicação,
Simplesmente assim.
Céu,
Sem começo, sem fim.

A poesia,
Simplesmente é.