Nosso Castelo de Cartas

Nosso Castelo de Cartas

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Sobre dor

Às vezes...
as pessoas acham que podem magoar você
A verdade? 
É claro, elas sempre podem.

Mas, 
no meu caso, 
não.
não se preocupe com isso,
não dá pra me magoar mais.

As pessoas que sentem demais 
são extremamente masoquistas. 
Veja os poetas, por exemplo
Sentem demais 
quer queiram 
quer não queiram 
estão predestinados a dor 

Sentir demais...
A mais amaldioçada 
dádiva de todas.

A verdade é que a maioria das pessoas vêem a dor como uma terrível inimiga 
Outras não. 

Existem pessoas, que apenas acham que conhecem a dor...
e existem pessoas que tem a dor como uma aliada
Que nasceram nela
Foram moldadas nela 
Sofreram muito
Sofreram sempre
Sofreram tanto

Não adianta fugir 
Ela vai te alcançar, te acertar tão forte
Tantas vezes...

Até você se acostumar com ela 
Essas pessoas
Esses poetas
Já sentiram tanta dor 
que deixaram de sentir dor 
que passaram a não sentir nada.
Chegou um ponto que elas nem conseguiam mais sofrer. 
Sofrer tornou-se usual
Tornou-se padrão
Tornou-se só mais um dia comum 
É hábito 
Faz parte 
É assim mesmo 

Esse é o ponto que você esquece a dor. 
O problema é que
quando você
esquece a dor

Você ganha um problema novo
Agora você não sente 
mais
nada. 
E aí você descobre que não sentir nada
É pior que a dor 

Aí você começa a procurar
o que sentir 
em todo canto
Procura em todos os lugares
grita
Socorro! 
Não estou sentindo nada
Já não sinto amor
Nem dor
Já não sinto nada 

Até que um dia, você encontra a dor 
E lembra que não sentir nada 
É pior que o sofrer 
É pior que a dor 
É depois do fundo do poço 

Aí você abraça a dor
Final feliz
Reconciliação!
Estão juntos novamente
É muita alegria 
Ter a dor de volta consigo 

Aí depois de tudo isso
Você não larga ela nunca mais 
A dor ela anda sempre do seu lado 
É sua amiga
Sua maior aliada 

E você aprende 
Que é bom sentir dor 
porque pior que não sentir dor
É não sentir nada

Então sinta 
Nunca deixe de sentir 
Sinta exageradamente 
Grite tudo que sentir 

Se não te ouvirem
Vai restar a dor.
Mas a dor? 
A dor meu amigo
Anda sempre do meu lado 

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Reescrevendo (Nov/2013) - O poeta sem coração

Disseram-me que os poetas escrevem
Aquilo que vem no coração
Mas um dia, rodando pelo mundo
Eu encontrei um poeta sem coração.
Eu perguntei a ele como escrevia
Afinal como poderia
Ser um poeta, sem coração

Ele disse eu não sou, eu fui
Um dia eu fui um poeta
Quando eu tinha um coração
Hoje já não sou mais

E o que aconteceu com o seu coração?
Foi arrancado de seu peito?

Se tivesse sido arrancado, eu teria percebido
Se tivesse sido roubado, eu teria notado.
Se tivesse sido destruído, eu teria sentido
Se tivesse sido machucado, eu teria visto.
Se tivesse sido guardado, eu saberia onde.
Mas ele sumiu
Sem que eu percebesse ele fugiu
Eu vi ele partindo e o deixei
E quando me dei conta, já era tarde
Ele já não estava mais aqui

E como é não ter um coração?
Sem um coração, é difícil sofrer.

E isso não é bom?
Não, não é.

E porque não?

Se você gosta da luz, é porque ela te salva das trevas
Se você gosta da beleza, é porque sabe o que é feio
Se você gosta é porque sabe o que é odiar.
Mas e se você de repente não pode mais sofrer?
Não pode mais sentir?
O que é a felicidade?
Eu esqueci.

E o que fará você sem um coração?

Eu pagarei a minha pena
Como um ser vazio de sentimentos
Exaltando a solidão
Mascarando a felicidade
Vivendo de ilusões

A realidade é cruel criança
O mundo faz seu coração partir
Ele leva embora suas esperanças
E esmaga seus sonhos

Para onde você vai?

Eu vou embora
Seguir meu rumo sem destino
Procurar um sentido sem sentido
E juntar-me a multidão
Eu fiquei velho e cansado
E já não há para onde ir

Você me escutou criança?
Sim.

Então está tudo bem.
Dentro das suas memórias
Eu viverei para sempre

Ser poeta é assim.
Não importa quantas vezes eu morra.
Palavras,
São imortais.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Mergulho e Queda

          Do alto do abismo o poeta admira a paisagem da solidão, as nuvens passam entre as suas mãos. Ele deita no chão frio e observa o céu azul, não há mais nada afora o mar escuro tantos metros abaixo. 
          O poeta levanta, sorri, e corre desesperadamente para a beira do abismo como se sua própria vida dependesse disso, ele pula, salta, se joga, se atira, se lança ao nada do horizonte como se não houvesse amanhã. Seus movimentos são perfeitos, mergulhador profissional, já pulou tantas vezes que sabe exatamente o que fazer, como pular, em que posição descer e como cair. Foi um salto perfeito. 
            E é aqui que você entende porque os poetas são mergulhadores. É o vento que corta seu rosto, a sensação de não ter chão sob seus pés, a liberdade de não ter absolutamente nada te segurando. 
        Ele segue com toda velocidade para frente, rosto em direção à água, mas é aí que mora o problema… todo pulo é um mistério… um salto de fé em direção ao desconhecido, mas às vezes, na verdade, na grande, esmagadora maioria das vezes, a aterrissagem é catastrófica. Os poetas vivem de mergulhos profundos, atirados ao infinito sem medo das consequências… é inevitável... sentir é seu vício, e todos que sentem demais entendem que se este é o mais belo dos dons, ao mesmo tempo também é a mais terrível de todas as maldições.
      Afinal, a liberdade do salto… o vento atravessando o rosto, sentir o peito palpitando a velocidades absurdas… Vale a queda?
            Porque a queda é hedionda, aterrorizante, impiedosa.
         O som que vem em seguinte é terrível. Mais uma vez, o poeta se atira com toda vontade em direção ao desconhecido… mas mergulhos profundos em superfícies rasas não são algo bonito de se ver. O poeta atinge a água com toda velocidade, a profundidade do chão? Dez centímetros. Serei honesto com vocês, de tantos saltos que deu na vida, ele nunca antes em toda a sua história havia atingido uma superfície tão rasa, fútil, egocêntrica.
       Foi arrasado, destruído, assolado, danificado, avariado, inutilizado, desfeito, desmanchado, demolido, derrotado, arruinado, desolado, desbaratado, aniquilado, destroçado, abatido, devastado. Incontáveis ossos de seu corpo se quebraram, seu sangue atirado em todas as direções, cada pedaço do seu corpo sentia uma dor insuportável, e muitos diriam, que morrer seria melhor do que experimentar tamanho sofrimento.
           Com a face esmagada no chão, sangue por todos os lados espalhando-se pelo mar, tantos ossos do corpo em pedaços, rosto mergulhado e pulmões enchendo-se de água salgada, parecia o fim do poeta.
          Entretanto, eis aí a dádiva e ao mesmo tempo, o grande infortúnio dos que sentem demais. É impossível a morte por queda… os poetas são imortais. Mas e a dor? Ah, a dor é tamanha que muitas vezes a morte lhes parece um destino muito mais doce e gentil.
          Passa-se o tempo e o poeta permanece mergulhado na água, sentindo seu sangue se esvaindo, seus ossos despedaçados, o sal em seus ferimentos e a água em seus pulmões. O tempo se vai… e aos poucos o poeta começa a se recuperar, demora, demora muito, uma eternidade, mas seus ossos quebrados eventualmente se consertam, o sangue perdido volta a bombear em suas veias, e ele lentamente começa a rastejar, sentar-se, levantar-se, caminhar, ele volta a olhar para o sol. A dor ainda não passou, mas é menor, mais suportável a cada dia.
        O mais cedo possível, o poeta, apesar de ainda nem estar completamente recuperado, carregando consigo cicatrizes que permanecerão por uma vida inteira, logo volta a escalar a montanha, e ei de avisar, que a escalada já é difícil por si só, mas com tantos ossos tão recentemente quebrados, com tão pouco sangue percorrendo seu corpo, todo o cansaço dos ferimentos e da queda, torna a subida quase que impossível. Mas ele não desiste nunca, e o poeta logo alcança novamente o topo da montanha. 
          Do alto do abismo o poeta admira a paisagem da solidão… as nuvens passam entre as suas mãos, ele corre como se sua própria vida dependesse disso, e se joga mais uma vez. 
          Ao sentir a indescritível dor da queda, é plausível compreender que algumas pessoas jamais conseguem pular outra vez. No alto da montanha é mais seguro, mais tranquilo, lá é fácil… o poeta entende perfeitamente o sentimento de todos que se recusam a saltar uma segunda vez.
           Mas ele simplesmente não consegue. Se atirar do alto do abismo é a natureza do poeta, mesmo sabendo da imensa possibilidade de quase sempre atingir superfícies extremamente rasas, que o farão quebrar todos os ossos do seu corpo, tal medo não é o suficiente para impedir o poeta de saltar. Se arriscar na queda para o poeta é vício, é impossível não se jogar.
          Então, ele salta mais uma vez em direção ao desconhecido, na esperança que desta vez, quem sabe, consiga alcançar a verdadeira profundidade e imensidão do mar.
          Contudo, para o poeta, o maior prazer é a queda. O vento cortando seu rosto, estar no ar ainda que seja por tão poucos segundos sem tocar nada, a liberdade de sentir tudo até o último momento, é tudo tão rápido, e ele sempre sabe que muito provavelmente atingirá mais uma vez o chão raso que irá quebrar todos os ossos do seu corpo. Isso tudo, por uma brevidade tão ínfima. Será que vale mesmo a pena? 

          O salto, pela queda?

          Sim.

          Vale.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Reescrevendo (Fev/2014) - Amor de 13 anos

Bom mesmo é amor de treze anos, já parou pra pensar?
Com treze anos você podia chegar pra alguém e dizer eu te amo, quer namorar comigo?
Do nada.
Aí você cresce e dizer eu te amo vira proibido.

Já pensou virar pra alguém na rua e dizer eu te amo?
Mas como assim! Você nem conhece?
Conheço sim, de outra vida.
Quando éramos gatos.
Você só esqueceu, mas eu me lembro.

Você tem que se aproximar das pessoas com cuidado, se fala demais com elas, tá enchendo o saco. Se puxa conversa, tá dando mole. Se você tenta falar com alguém que não conhece, tá “cantando”.

Não dá mais pra chegar no meio da rua, e falar pra alguém “Hey, quer ser meu amigo?” Caraca que estranho. Adultos não fazem isso. Você é retardado?

Vamos andar por aí? Tá louco! Quer me levar pra onde? É bandido.

Crescer é muito chato.
Te prometem liberdade, mas cadê a minha?

Quando eu era criança eu podia chamar qualquer um na rua pra ser meu amigo. Podia mandar uma cartinha pra uma menina que eu não sabia nem o nome e dizer “eu te amo”.

E hoje nada pode.
Até falar com alguém do nada é estranho.

Bom mesmo é amor de 13 anos. Se apaixonar perdidamente, quebrar a cara certamente.

Aí você fica velho e já nem se apaixona mais. A vida se torna uma grande sucessão de decepções, tudo é previsível, prevenido, precavido, precário, no pretérito, uma porra.

Bom mesmo é amor de 13 anos.
Quando você não pensa em mais nada. Só em estar apaixonado.

Aí você fica velho e a vida te cobra, são compromissos, afazeres, dinheiro, responsabilidades, obrigações, dinheiro, estudar, trabalhar, dinheiro, sobreviver, dinheiro.

E você se esquece até de se apaixonar.
Por alguém, por algo, por qualquer coisa, por viver.

Ai você vira esse pedaço de máquina. Sem saber pra onde ir, sem saber onde estar, seguindo o fluxo, mas um na multidão.

Bom mesmo era meu amor de treze anos.
Eu escrevia cartas pra ela e dava flores. Eu dizia que a amava e nada mais importava.

Meu amor de treze anos, treze anos atrás. Disse que me amava.
Aí a gente cresceu, a vida chegou e o amor passou.
Só vinte e seis anos, mas me sinto tão velho.

A vida te quebra em cacos, você pode até juntar,
mas remendado não é inteiro.
Amor de 13 anos nunca mais, fiquei velho.
Amor de 13 anos só aquele, de 13 anos atrás.

Eu podia voltar a falar com as pessoas no meio da rua.
Escrever cartas de amor, fazer novos amigos.

Vou ali ter treze anos
Jogar videogame, me lambuzar de sorvete.
Escrever cartas de amor.
E ser feliz.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Meu último desvario

Acordei com um sorriso no rosto, ela do meu lado ainda dormindo. Passei uns minutos admirando ela na cama, eu diria, tão apaixonado quanto fui desde que a conheci tantos anos atrás, mas era mentira, na verdade, cada dia que passava eu a amava mais.
Mas foi rápido, logo fomos atacados na cama. Um ser saltou sobre mim e se jogou entre a gente para nos acordar, “Papai! Papai!” O pequenino gritou. “Vem ver o que eu fiz!”  Ela reagiu com uma careta de quem foi acordada cedo demais, engraçado, as coisas mudam, eu que costumava reclamar de acordar cedo, ela falou ainda com os olhos fechados “Vão lá, vocês dois... Que eu quero dormir”.
Sai carregando ele da cama, na sala ele gritou “Olha o desenho que eu fiz!” Peguei a folha, admirei os rabiscos e falei “Meu Deus! Esse garoto será um grande artista!” E em seguida perguntei “E sua irmã onde está?” E o pequeno me respondeu “Deve estar no quarto dormindo ainda”.
Soltei ele na sala e fui lá ver a pequena, estava deitada na cama dormindo tão tranquila... peguei ela nos braços, o casal que sempre quisemos ter, mas a verdade é que não imaginávamos que iam acabar vindo os dois de uma vez só.
Aliás, sempre não, minto.
Quando te conheci nunca imaginei que teria filhos. Eu gritava pra todo mundo que jamais faria isso. Crianças? Dão trabalho demais. Nossa! São um gasto muito grande! Odeio crianças.

Soltei a garotinha dos meus braços, e tudo se passou na minha cabeça.

Despertando do meu devaneio acordado, me encontrei na minha cama sozinho olhando pro teto, e logo percebi que tudo que eu havia sonhado jamais iria se realizar. Mas por que não? O que de impossível havia nessa realidade tão simples.

Você.
Você partiu.

Entrou na minha vida, no meu coração. Mudou meus planos, me mudou. E foi embora. Sem motivo, explicação, sem porquê, você partiu e me deixou aqui só.
Você sempre disse que o meu maior problema era que eu não tinha planos. E bom, era verdade. Viver um dia de cada vez, Carpe Diem era meu lema. Não pensar muito no amanhã ou cinco anos na frente, eu era assim.
Mas é engraçado como as pessoas mudam. De repente, agora tudo que eu mais tenho são planos, para daqui há um mês, ou dois, e até para cinco anos no futuro. Eu agora queria uma família, e sonhava com o casal de filhos que você sempre falava. Eu que quis ter todas as mulheres, de repente, nos meus planos, só havia uma e mais ninguém. Se o problema era que vivíamos em mundos diferentes, de repente, tudo que eu queria era entrar no seu mundo e viver nele, não somente por você, mas sim, porque se tornou realmente o que eu queria.
Eu te perguntei, “Se pudesse mudar algo em mim, o que seria?” E você me disse, “Eu gostaria que você tivesse planos.” E agora tenho planos, todos os planos do mundo. Todos os planos que você sempre quis.
Mas...
Todos os meus planos são com você.
E você partiu.

Um lado de mim sempre fica esperando que você vá voltar. Que você consiga sonhar como eu sonhei, a mesma fantasia que se passou na minha cabeça, nós dois acordando juntos e um casal de filhos pulando por aí uns anos a frente. E que você quisesse tanto quanto eu torná-la realidade. Mas um outro lado meu, sabe que você nunca vai voltar.
O problema é que mesmo que você conseguisse ver o que sonhei, e voltasse para mim, se, ou quando isso acontecesse, pode já ser tarde demais.
Cada dia que passa eu fico mais distante, e dou mais um passo sem volta para longe de você. Hoje eu ainda me pergunto se ainda seria possível, mas amanhã eu talvez nem me pergunte mais. Amanhã provavelmente já vai ser tarde demais.
Você me pediu um tempo para pensar, um tempo sozinha, um tempo para você, um tempo para analisar tudo isso.
E eu resolvi te dar, resolvi me afastar o máximo que consegui, queria ver você melhor, queria que você pensasse mesmo bem no que fazer e tomasse a decisão certa. Mas aí eu fico pensando se eu ainda estarei aqui quando você tomar. Ou se você tomar.
E infelizmente eu acho que não.
Cada dia que passa eu me distancio mais, e a verdade é que já dei tantos passos para longe que nem sei mais se é possível voltar. E eu sei que em breve eu estarei definitivamente longe demais.
Mas enquanto eu amar, eu vou lutar por amor. Como disse Príamo, rei de Troia, “Eu já lutei tantas guerras na minha vida, várias por territórios, outras por poder, algumas por glória. Mas agora, eu acredito que lutar por amor, na verdade, faz mais sentido que todo o resto”.
Eu comecei a escrever esse último desvario na esperança de te falar que o que você queria que eu mudasse, havia mudado, e que agora poderíamos ser felizes juntos. E que se existiam motivos para dúvidas, agora não existiam mais. E que eu ainda queria tanto que você voltasse. Que eu ainda te amava. Que eu iria continuar lutando por amor e que tudo teria valido a pena.
Mas isso tudo foi ontem de manhã.
Agora, já é hoje à noite, eu me pergunto se já não ficou tarde demais.
Na verdade, eu acho que já é tarde demais.

E que esse último desvario por você, na verdade foi uma carta de despedida.